quando todo mundo opina sobre tudo
Mas o mesmo formato do podcast solo começou a soar constrangedor a partir do momento que foi revelado, e evoluiu para o microfonezinho que pode ser segurado apenas com o polegar e o indicador. O curioso é que este aparelho chama lavalier, vulgo microfone de lapela, e foi criado justamente para ser preso na roupa e liberar as mãos.
Ao segurá-lo, ou prendê-lo em objetos como bilhete de metrô ou uma colher de pau, simula-se um repórter ou palestrante. É a forma de autoridade sem a substância dela, um gesto de quem tem algo importante a dizer, encenado por quem talvez não tenha. É um incrível fenômeno de quem se vende como especialista de tudo, mas no fundo nunca fez nada.
Nos últimos anos, as plataformas migraram de vez para o vídeo e passaram a recompensar um formato específico: o conteúdo educativo, denso, explicativo, entregue em pílulas. A dança e o meme, que eram curtinhos, deram lugar ao explicador, que tem maior probabilidade de reter a audiência ali dentro. Por isso eles aparecem tanto como sugestões de conteúdo dentro do seu feed e nas abas ‘Explorar’ e ‘Para Você’.
A revista britânica “Dazed” batizou o fenômeno de “epidemia de explicadores”: uma legião de gente que descobriu que dar aula sobre qualquer coisa, de geopolítica a intestino, rende mais alcance do que qualquer outra coisa. Para esse tipo de criador de conteúdo, criou-se o termo “thinkfluencer”, ou “influenciador do pensar”, em tradução livre.
O problema é que profundidade não combina com pressa. Como resumiu a jornalista Shuang Bright à Dazed, “não dá para ser profundo depressa”. O que sobra, na maioria das vezes, é a fachada da educação: o formato do conhecimento sem o conhecimento em si. Aprendeu-se a imitar a aparência de quem sabe (o tom pausado, o olhar firme, o microfone na mão) sem necessariamente passar pelo trabalho lento de saber, pesquisar e aprofundar.
O microfonezinho virou o soapbox moderno, aquele caixote improvisado que no século 19 servia para as pessoas subirem em praças públicas para discursar para quem quisesse ouvir. A diferença é que o caixote de hoje cabe na palma da mão, e a praça tem bilhões de pessoas passando o dia inteiro.
A pergunta que fica é: por que, de repente, todo mundo resolveu subir no caixote ao mesmo tempo? Em 1979, muito antes do primeiro smartphone, o historiador americano Christopher Lasch publicou “A Cultura do Narcisismo” (Fósforo Editora).
Num trecho que hoje soa quase profético, Lasch descreveu como os meios de comunicação de massa permitiriam que as pessoas “falassem para milhões e, ainda assim, estivessem falando apenas consigo mesmas”. Troque “meios de comunicação de massa” por “feed” e a frase poderia ter sido escrita ontem. No universo de opinadores e de microfonezinhos, a pessoa fala para uma multidão invisível e, no fundo, conversa apenas com o próprio reflexo.
Mas o momento mais interessante desse livro de Lasch é quando ele diz que, numa cultura narcísica, o sucesso deixa de ser medido pela realização concreta e passa a ser medido pela imagem do sucesso. Ou seja: importa menos ter feito algo e mais parecer alguém que fez. É uma definição que cabe como uma luva para os influenciadores de bets que vendiam uma vida de luxo.





