Advogado tornou-se voz pela acessibilidade no direito – 08/08/2026 – Cotidiano
Lucas Silva Lopes subia lentamente a rampa do prédio de direito da PUC-Campinas todas as noites, de segunda a sexta, com ar soberano e distribuindo sorrisos às dezenas de pessoas que diziam: “Boa noite, Lucas!”.
Foi assim durante cinco anos. Quando apontava no fim do trajeto, o segurança do campus o esperava, quase como um hábito indissociável de seu ofício. “Boa noite, mestre!”, saudava o jovem estudante. Os carros paravam com respeito, e o funcionário o acompanhava até a porta da van.
O caminhar lento se devia menos ao fato de Lucas ter paralisia cerebral e precisar de muletas para se mover, e mais às interações de amor com colegas e funcionários da PUC. Era uma celebridade entre seus pares.
Na terça-feira (4), muitos desses amigos se despediram de Lucas no cemitério de Hortolândia, no interior de São Paulo. Ele foi encontrado morto em Mogi Mirim, no domingo (2), vítima de um homicídio ainda pouco explicado.
Lucas tinha 30 anos e cursava doutorado na USP (Universidade de São Paulo). No ano passado, tornou-se mestre em direitos humanos pela mesma instituição.
Criado na periferia de Hortolândia, estudou em escola pública. Ingressou na universidade por meio de uma bolsa e, primeiro de cinco irmãos a cursar o ensino superior, tornou-se pilar de orgulho e ascensão social da família.
A limitação de mobilidade nunca foi impeditivo para os estudos. Ocupou-se, desde o ensino fundamental, a ser o “nerd da sala”, nas palavras de uma amiga de escola.
“Na Escola Estadual Guido Rosolém, foi aluno brilhante; sempre as melhores notas, desafiando-se em melhorar. Recebia, com brilho nos olhos, propostas e projetos escolares. Mas sua vida escolar era em construção com os colegas, sempre ao lado deles. Gostava de ser monitor e auxiliar nos trabalhos e dificuldades dos companheiros. A humanidade sempre foi seu lado mais bonito”, lembra Dorine Gomes, professora de português de Lucas no ensino fundamental.
A liderança proeminente o levou à grande causa de sua vida: a luta por acessibilidade. Foi voz contra o capacitismo em todos os ambientes que frequentou. “Acessibilidade não é adaptar o mundo, é esperar que ele funcione para todos, independentemente da forma de seus corpos”, pregava.
Recentemente, dividia-se entre o trabalho na Ambev e o doutorado. Foi ainda diretor-voluntário na Casa da Criança Paralítica de Campinas. Mas gostava mesmo de passar o tempo com a família e com os amigos, centenas deles, cativados por sua generosidade imensurável.
Deixa os pais, Gisele e Itamar, e os irmãos Felipe, Vinícius, Lara e Alice.





