Ações farmacêuticas atraem investidores fora da IA – 30/08/2026 – Economia
As ações do setor farmacêutico vêm registrando um ano recorde até agora, com as empresas do segmento atingindo novas máximas em agosto, à medida que investidores buscam diversificar suas carteiras para além da inteligência artificial e dados positivos de ensaios clínicos impulsionam o setor.
As ações de farmacêuticas como Johnson & Johnson e Merck superaram significativamente o mercado, com o índice farmacêutico do S&P 500 avançando 18% nos primeiros oito meses do ano. Em comparação, o S&P 500 mais amplo subiu 13%.
O setor vive uma trajetória de alta graças aos acordos firmados com o governo Donald Trump para reduzir preços, além de dados revolucionários de ensaios clínicos que fortaleceram as empresas de biotecnologia.
As ações de biotecnologia e farmacêuticas tiveram um verão especialmente favorável, com altas de 27% e 19%, respectivamente, nos índices americanos desde maio. O S&P 500 avançou apenas 7% no mesmo período.
As farmacêuticas devem receber novo impulso na segunda-feira (31), quando Bayer, Takeda, CSL e várias empresas de biotecnologia de médio porte devem anunciar novos acordos de preços com a Casa Branca, segundo duas pessoas a par do assunto.
AstraZeneca, Novo Nordisk, Eli Lilly e outras grandes farmacêuticas já firmaram acordos semelhantes, nos quais concordam em reduzir preços em troca de alívio tarifário. Investidores vêm pressionando as empresas a fechar esses acordos para garantir previsibilidade aos preços dos medicamentos e evitar regulamentações mais rígidas.
A Casa Branca afirmou que os detalhes dos acordos “devem ser considerados especulação” antes de seu anúncio oficial, acrescentando que o governo Trump havia avançado na redução dos preços dos medicamentos. Bayer, Takeda e CSL não quiseram comentar.
As avaliações de farmacêuticas e empresas de biotecnologia foram prejudicadas no ano passado, depois que o presidente Donald Trump ameaçou obrigá-las a reduzir seus preços nos Estados Unidos e a possível imposição de tarifas ameaçou causar uma reviravolta no setor.
“Havia duas grandes incógnitas, e parecia que passamos a maior parte de 2025 tentando entender o que tudo aquilo significava”, disse Emily Field, chefe de análise de ações do setor biofarmacêutico americano no Barclays.
Mas, depois que a Pfizer firmou um acordo com a Casa Branca para reduzir os preços dos medicamentos nos Estados Unidos, e outros grandes grupos farmacêuticos assumiram compromissos semelhantes de produção no país em troca de isenções tarifárias, o setor entrou em trajetória de alta.
“Havia muitas preocupações, sobretudo com os riscos de controle de preços nos Estados Unidos, e isso melhorou drasticamente ao longo do tempo com o governo Trump”, afirmou Rick Bradt, gestor de portfólio do grupo de estratégias de crescimento da Neuberger, em Nova York.
Os acordos abriram caminho para o ritmo recorde de fusões e aquisições no setor farmacêutico neste ano. Até julho, 37 empresas de biotecnologia haviam sido adquiridas por pelo menos US$ 1 bilhão cada, superando as 35 do ano passado, segundo a empresa de investimentos americana Stifel.
Houve várias transações bilionárias neste ano, entre elas a aquisição da Apogee Therapeutics pela AbbVie por US$ 10,9 bilhões, a compra da Nuvalent pela GSK por US$ 10,6 bilhões e os desembolsos da Eli Lilly de US$ 7 bilhões pela empresa de biotecnologia oncológica Kelonia Therapeutics e de US$ 7,8 bilhões pela Centessa.
Enquanto isso, ensaios clínicos bem-sucedidos ajudaram as ações de biotecnologia a subir 86% nos últimos 12 meses, tornando-as o segmento de melhor desempenho do mercado acionário americano no período.
A fabricante de medicamentos contra o câncer Revolution Medicines surpreendeu o mercado no início deste ano, quando seu medicamento daraxonrasib dobrou a taxa de sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas avançado. A FDA (Food and Drug Administration) aprovou o medicamento na semana passada, e as ações da Revolution acumulam alta de 168% neste ano.
As ações da Moderna, que ganhou destaque durante a pandemia de Covid-19, subiram quase 400% neste ano depois que a fabricante de vacinas divulgou resultados bem-sucedidos de ensaios clínicos de uma terapia contra o câncer em desenvolvimento. Somente em um dia de agosto, os papéis avançaram 177%.
O setor farmacêutico também vem se mostrando uma proteção para investidores receosos com as turbulências no setor de tecnologia americano, fortemente concentrado em inteligência artificial.
“É realmente uma combinação do desejo de diversificar para além desse trem de carga em via única da IA generativa, que impulsiona o mercado desde 2024, com a crescente atratividade da área da saúde“, disse Bradt. “Aumentamos nossa exposição a biotecnologia e farmacêuticas nos últimos meses.”
“É intuitivo pensar que os setores farmacêutico e de biotecnologia estarão entre os vencedores com a IA”, afirmou Field, do Barclays. “Não é possível substituir com IA o que essas empresas fazem. Sempre que há pânico no setor de tecnologia, o farmacêutico é visto como um porto seguro.”
Um investidor baseado em Londres afirmou que o otimismo em torno do setor nos Estados Unidos havia inflado tanto os preços das ações que agora estava difícil encontrar boas oportunidades pelo valor pago. Isso pode ser uma boa notícia para os grupos farmacêuticos europeus, sobretudo os “retardatários” que estão subavaliados, como a francesa Sanofi, que substituiu seu presidente-executivo neste ano após preocupações com seu portfólio de medicamentos em desenvolvimento.
“O setor farmacêutico está ficando caro por causa da ampliação da alta do mercado”, disse o investidor. “Agora estamos de olho nos retardatários. O setor farmacêutico europeu ainda tem espaço para subir, e chegará um momento em que essas empresas se tornarão atraentes.”





