Minha filha escondeu que fez um aborto; o que faço? – 30/08/2026 – Equilíbrio e Saúde
Pergunta: Minha filha, hoje com 23 anos, fez um aborto quando tinha 16 ou 17. Na época, não percebi. Ela não me contou que estava grávida, mas perguntou o que eu faria se ela engravidasse e quisesse abortar. Respondi: “Bem, eu iria querer conversar primeiro, porque seria meu neto ou minha neta. Eu gostaria de me certificar de que ela não estava sendo pressionada pelo pai e de que realmente queria fazer o aborto”.
Ela disse: “Entendi”, e não falou mais nada. Alguns dias depois, teve cólicas terríveis. Também me perguntou por quanto tempo as mulheres produzem leite depois do parto.
Cerca de dois anos depois, finalmente me permiti enxergar que minha filha havia passado por tudo isso sozinha. Infelizmente, às vezes tenho a tendência de passar anos sem me permitir “enxergar” verdades incômodas.
Quero que minha filha saiba que entendi o que aconteceu e que me sinto péssima por não estar ao lado dela e por dar a resposta errada. Não quero que ela carregue culpa e quero que recorra a mim se algum dia voltar a se encontrar nessa situação.
Devo tocar no assunto ou isso vai magoá-la? Sempre fui uma mãe dedicada; esse é o trabalho mais importante da minha vida. Sinto que falhei com ela e agora me pergunto se devo reparar isso —e como.
Resposta da terapeuta: É doloroso carregar um arrependimento tão significativo, sobretudo quando ele entra em conflito com a imagem que você tem de si mesma. Você diz que ser uma mãe dedicada é o trabalho mais importante de sua vida, então posso imaginar a angústia que sente ao pensar que falhou com sua filha em um momento decisivo. Mas é justamente essa mesma dedicação que a ajudará a estar ao lado dela agora desde que você consiga direcioná-la para uma questão mais ampla do que a pergunta imediata.
É compreensível que você queira aquilo que muitos de nós desejamos quando lidamos com o arrependimento: uma segunda chance. “Se eu pudesse voltar atrás e agir de outra forma, ou contar à minha filha como teria agido de outra forma, poderia consertar tudo.” Mas, embora abordar o que aconteceu —ou não aconteceu, pois isso não está claro— possa trazer algum alívio a uma de vocês ou a ambas, o que realmente seria melhor para sua filha daqui para a frente seria mudar o padrão de desviar o olhar daquilo que você sabe.
É preciso muita coragem para dizer: “Eu faço algo que magoa as pessoas que amo”, como reconhecer sua tendência de deixar de lado “verdades incômodas”. Agora é hora de tentar entender de onde vem esse comportamento.
Ele surgiu da cultura familiar em que você foi criada? Se você viveu o isolamento de não poder abordar certas realidades em sua família, duas coisas podem ter acompanhado você até a vida adulta. Primeiro, você continuaria com medo de “enxergar” os tipos de situação sobre os quais não se podia falar.
Segundo, uma parte de você talvez tenha prometido proporcionar à sua filha justamente a experiência oposta, o que pode estar intensificando seu arrependimento. E quanto ao relacionamento com o pai de sua filha: havia consequências quando questões dolorosas eram enfrentadas?
Ao refletir sobre onde aprendeu essa maneira de lidar com o desconforto, você também pode se perguntar: Do que “não saber” a protegeu? E, por outro lado: O que isso custou a você e às pessoas com quem se importa? (A resposta costuma ser confiança, segurança e intimidade.)
Não saber pode ser um acordo implícito em um sistema familiar: você não me contará diretamente, e eu não perguntarei diretamente. Sua filha insinuou —mas não nomeou— uma questão difícil que talvez quisesse discutir sem arriscar enfrentar algo ameaçador (quem sabe abandono emocional, julgamentos ou que seus sentimentos se sobrepusessem aos dela). Ao mesmo tempo, você percebeu o suficiente para sentir que algo estava errado, mas preservou incerteza suficiente para evitar confrontar a situação. E, embora a conversa sobre o aborto possa ser um exemplo marcante dessa dinâmica, imagino que existam outras verdades em seu relacionamento das quais vocês duas continuam se esquivando.
Então, voltemos à sua pergunta: como reparar uma falha percebida sem fazer com que a pessoa ferida tenha de cuidar de sua culpa? Revisitando esse padrão mais amplo.
Você poderia dizer algo assim:
“Lembra quando você era adolescente e me perguntou o que eu faria se você engravidasse e quisesse abortar? Tenho pensado muito nisso e percebi que tenho a tendência de evitar reconhecer coisas que me causam desconforto. Quero mudar isso. Agora vejo que, por causa desse padrão, não estive ao seu lado da maneira que imagino que você precisava. Não sei o que você viveu, mas gostaria que você não tivesse precisado passar por isso sozinha e que eu tivesse perguntado diretamente o que estava acontecendo. Tenho certeza de que, ao longo dos anos, dei sinais de que não era capaz de lidar com esse tipo de conversa incômoda, e sinto muito por isso. Se você estava grávida, gostaria de ter me concentrado em seus sentimentos e desejos e ouvido o que você precisava em um momento de tamanha vulnerabilidade. Sei que não posso retroceder e consertar isso, e não estou pedindo que você me perdoe. Estou tocando nesse assunto porque quero agir de outra maneira com você daqui para a frente. Se houver coisas entre nós —do passado ou do presente— que pareçam difíceis demais para conversar, espero me tornar alguém com quem você se sinta mais segura para falar. E, independentemente de você querer ou não revisitar esse momento específico, eu amo você e estou aqui.”
Observe que você não está pedindo que ela apague seu arrependimento, alivie sua culpa ou garanta que está bem ou que você é uma boa mãe.
(Eu mesma lhe direi esta última coisa: o fato de você estar escrevendo para mim com uma autoconsciência franca, disposição para mudar e o desejo genuíno de fazer o que é certo por sua filha mostra que você é, sim, uma boa mãe —embora falível e empenhada em melhorar, como todos nós.)
O interessante sobre o arrependimento é que ele pode mantê-la presa ao momento que gostaria de mudar ou pode transformar a maneira como você se apresenta no momento seguinte. Você não pode desfazer o que talvez tenha acontecido, e sua filha pode reagir de formas que você não consegue prever. Mas há algo que você pode fazer de modo diferente agora: quando ela lhe trouxer uma verdade incômoda, você não desviará o olhar.





