Embaixadora dos Emirados Árabes entra na disputa para ONU - 21/10/2026 - Mundo - FlaNotícias
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Embaixadora dos Emirados Árabes entra na disputa para ONU – 21/10/2026 – Mundo


Uma funcionária diplomática de alto escalão dos Emirados Árabes Unidos entrou na corrida para assumir a Secretaria-Geral da ONU, agitando a disputa pela sucessão em meio a um impasse provocado por rivalidades geopolíticas.

Apoiadores de Lana Nusseibeh sondaram recentemente missões diplomáticas na ONU, onde ela é bastante conhecida por ter sido embaixadora dos Emirados junto à organização, para avaliar a receptividade da candidatura, segundo diplomatas.

“Está claro hoje que precisamos de um secretário-geral que consiga voltar a se comprometer ao futuro do multilateralismo e com o futuro das Nações Unidas como uma entidade que resolve problemas em vez de um observador das crises mundiais”, afirmou ela à agência Reuters.

O atual secretário-geral, António Guterres, deverá deixar o cargo no fim de 2026, após dois mandatos de cinco anos marcados primeiro pela pandemia da Covid-19 e depois por guerras. Seu sucessor herdará uma organização em crise. A ONU enfrenta uma grave crise orçamentária em um momento em que sua autoridade no cenário mundial está em um nível historicamente baixo e em que os Estados Unidos, tradicionalmente seu maior doador, pressionam por cortes drásticos.

Após seis meses de debates públicos na ONU e em várias partes do mundo, os três principais candidatos oficiais ainda lutam para conquistar o apoio de todos os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (conhecidos como P5), cada um dos quais pode vetar a escolha do sucessor.

A favorita, Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e chefe do órgão da ONU para comércio e desenvolvimento, recebeu na semana passada nove votos de “apoio” na mais recente votação informal do Conselho de Segurança. Isso seria suficiente para garantir o cargo na votação final, mas ela também recebeu duas “rejeições” de países com poder de veto.

O segundo colocado, Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, também recebeu duas “rejeições”.

Segundo pessoas a par da disputa, o quase impasse está incentivando uma nova leva de candidatos a considerar entrar na corrida nesta fase avançada. Nusseibeh é considerada controversa, segundo diplomatas ouvidos pelo FT.

Ela foi uma figura popular na organização enquanto ocupou o cargo de embaixadora dos Emirados Árabes Unidos na ONU, de 2013 a 2024. Durante mais de uma década, a diplomata de perfil sofisticado defendeu as políticas e o histórico dos Emirados em um período no qual o país passou a desempenhar um papel cada vez mais assertivo nos assuntos mundiais, tanto como investidor quanto como ator geopolítico.

Os Emirados mantêm uma relação próxima com o governo Trump, mas Nusseibeh poderá enfrentar grande dificuldade para se distanciar das controvérsias envolvendo as intervenções do país em sua região e em outras partes do mundo.

Os Emirados enfrentam críticas intensas, sobretudo por seu papel no Sudão, onde apoiam o grupo rebelde paramilitar Forças de Apoio Rápido, acusado de atrocidades generalizadas na guerra civil do país. Abu Dhabi nega fornecer armas a qualquer uma das facções em conflito.

Uma questão importante em torno de sua candidatura seria se a Arábia Saudita, potência dominante do Golfo, se oporia a ela. Alguns analistas regionais consideram improvável que Riad conteste a candidatura, já que o reino, alvo de ataques dos rebeldes houthis apoiados pelo Irã, tenta superar uma ruptura com Abu Dhabi decorrente de divergências entre os dois países no Iêmen.

Mas Giorgio Cafiero, diretor-executivo e fundador da consultoria de risco geopolítico Gulf State Analytics, afirmou que a perspectiva de uma secretária-geral dos Emirados “poderia gerar preocupações em Riad”.

As potências do Golfo “mantêm uma relação muito competitiva, com agendas divergentes em toda a região”, disse Cafiero. “Isso não significa que a Arábia Saudita necessariamente se oporia de forma ativa a uma candidatura desse tipo”, acrescentou, mas “a rivalidade entre os dois países tende a se manifestar como um jogo de soma zero”.

Havia neste ano um entendimento informal na Assembleia Geral da ONU de que seria a vez da América Latina de ocupar o cargo e de que uma mulher deveria assumir o comando após nove secretários-gerais homens. Mas os EUA, que tradicionalmente exercem a maior influência sobre a decisão, começaram a minimizar publicamente o papel da região e do gênero na escolha.

“Entendemos que existe um desejo de rodízio regional”, disse Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, após a votação da semana passada. “É claro que, se a melhor candidata for uma mulher, nós receberemos isso com satisfação, mas o que realmente precisamos é do melhor candidato.”

“Os latino-americanos vão lutar com unhas e dentes para ter um representante da região como secretário-geral”, disse Richard Gowan, especialista em ONU do International Crisis Group. “Mas talvez as potências com poder de veto não se importem.”

Entre outros nomes em circulação, segundo diplomatas da ONU, está o do ex-ministro das Relações Exteriores da Turquia Feridun Sinirlioglu, chefe da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Há também pelo menos outras duas autoridades latino-americanas fazendo sondagens.

Os apoiadores de Grynspan ressaltam que ela venceu 5 das 6 votações realizadas até agora e é a única concorrente com histórico de reformas na ONU. Observadores próximos da organização afirmam que as duas “rejeições” que ela recebeu não são intransponíveis e podem refletir tentativas de países do P5 de obter concessões quanto a nomeações para cargos e às prioridades de sua gestão. Esse tipo de negociação é uma característica recorrente das disputas pela sucessão na ONU.

Em 1996, Kofi Annan enfrentou uma “rejeição” de um integrante do P5 até as etapas finais da disputa, antes de ser nomeado, em parte porque os EUA o consideravam uma figura discreta, que não causaria turbulências.

David Steven, pesquisador sênior da Fundação das Nações Unidas, afirmou que o atual grupo de candidatos “ainda não está fora da disputa”, mas que cresce a expectativa de que novos concorrentes entrem na corrida.

Entre os possíveis cenários, disse ele, está o de que, se um novo candidato não conseguir angariar apoio, alguém visto como “um nome seguro e experiente na ONU” ainda possa levar o cargo, sobretudo porque os EUA insistem em um candidato com uma agenda consistente de reformas.

“O Conselho de Segurança deveria resolver isso logo”, disse ele. “É absurdo que os 15 membros demorem tanto. O candidato acabará tendo menos tempo para a transição do que o Conselho de Segurança teve para fazer sua escolha.”



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