Vale votar em qualquer mulher? - 25/09/2026 - Mariliz Pereira Jorge - FlaNotícias

Vale votar em qualquer mulher? – 25/09/2026 – Mariliz Pereira Jorge


Vote em mulher. A campanha feminista para diminuir a desigualdade no poder ganhou nos últimos anos uma ressalva: vote em mulher, mas não em qualquer uma. Eu mesma cansei de defender que a representatividade precisa vir acompanhada de um selo de pureza ideológica –afinal, uma reaça continua sendo reaça apesar de ter em comum comigo o mesmo gênero. Acreditava que colocar em cargos de liderança uma candidata com a qual eu discordasse frontalmente seria um equívoco, um desserviço à pauta progressista. Mas mudei minha posição. Até mesmo aquelas pessoas com quem eu jamais dividiria uma mesa exercem um papel fundamental na política.

É importante que se vote em mulheres, inclusive naquelas que pensam diametralmente o oposto do que defendemos. A mera presença feminina nesses espaços ajuda a mudar a fotografia do poder. Isso normaliza algo que, no Brasil, ainda soa como anomalia: cidadãs ocupando cadeiras de decisão. Quando o eleitor se acostuma a ver líderes femininas comandando comissões, debatendo orçamentos e ditando as regras do jogo, uma barreira cultural silenciosa é rompida. Essa ocupação destrói a percepção de que a política é um clube exclusivo para senhores engravatados.

Nas últimas semanas, diante do escândalo do Banco Master e da rotina de falta de decoro em Brasília, vi muita gente comemorando uma suposta superioridade moral. “Repararam que só tem homem envolvido?” É tentador acreditar nisso, mas é só ilusão. A corrupção não é uma falha de caráter exclusivamente masculina; o cenário atual acontece simplesmente porque eles formam a esmagadora maioria nesses ambientes. O sistema foi desenhado por e para a manutenção de seus pares.

Podemos afirmar que, se houvesse paridade de gênero, as parlamentares, juízas e desembargadoras seriam incorruptíveis? Obviamente não. Levantamentos internacionais apontam que governos com maior proporção de mulheres tendem a apresentar menores índices de fraudes. No entanto, o motivo real passa longe de uma virtude inata. A questão é que sociedades abertas o suficiente para promover a igualdade eleitoral são, por natureza, democracias mais transparentes e com instituições sólidas.

E quando elegemos representantes com propostas retrógradas? Esse costuma ser um grande argumento de quem contesta o voto em qualquer mulher. A resposta pode ser bastante prática: ideias absurdas devem ser combatidas no debate público. Vimos essa dinâmica funcionar com o projeto de lei que tentava equiparar o aborto legal após as 22 semanas ao crime de homicídio, penalizando até crianças vítimas de estupro. A iniciativa era tão abjeta que provocou revolta generalizada, inclusive entre a parcela conservadora. A pressão popular expôs o horror à luz do dia e paralisou o texto.

Há, inegavelmente, uma hipocrisia imensa na figura política que prega a submissão ao lar enquanto atua como uma negociadora implacável nos corredores do Congresso, desfrutando do exato prestígio que nega às outras. Ainda assim, prefiro ver uma deputada conservadora —por mais reacionária que seja sua cartilha— debater pautas das quais tem vivência física e social, a ouvir um deputado legislar baseado apenas em abstrações morais que jamais cobrarão a fatura dele próprio.

Convém olhar para trás. Na Assembleia Constituinte de 1987, as mulheres eram apenas 26 entre 559 parlamentares. Elas foram ridicularizadas, apelidadas de Lobby do Batom. Sabe o que fizeram? Deixaram as divergências partidárias de lado. Deputadas de direita e de esquerda uniram forças e garantiram conquistas históricas. Transformaram a realidade do país porque estavam lá, sentadas à mesa.

Nós precisamos ocupar os palanques, as presidências, as prefeituras. Devemos ser tantas que a nossa participação deixe de ser um evento e passe a ser a regra. Quando formos metade ou mais do Legislativo, teremos o privilégio de sermos tão plurais, medíocres, geniais e falhas quanto os homens sempre tiveram a liberdade de ser. Até lá, a matemática é o primeiro passo rumo à mudança. Mude a fotografia dos Três Poderes: vote em mulheres.


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