Vai ter que chover dentro do STF para a eleição falar de clima?
O único momento em que “aquecimento global” entrou no pleito deste ano foi quando o senador Flávio Bolsonaro se negou a reconhecer a sua existência em sabatina no Jornal Nacional. E como adaptar o país e mitigar os efeitos de algo que a pessoa acha que não existe? É como pedir para um ateu construir uma igreja para Deus.
No Brasil, a letalidade dos ventos, da chuva e da lama vem sendo multiplicada pela incapacidade, incompetência ou má-fé de sucessivas gestões em municípios, estados e na União. Eventos climáticos extremos, que se repetiriam apenas ao longo de décadas, ocorrem no intervalo de um ano. O clima mudou, mas a ação dos governantes não o acompanhou. E isso mata.
Em 2024, mais de 180 pessoas morreram nas enchentes que atingiram 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. Em 2023, São Paulo estava velando os corpos de 64 mortos na Vila Sahy, em São Sebastião (SP). Em 2022, mais de 240 pessoas morreram com os deslizamentos de terra em Petrópolis (RJ). E por aí vai.
E a especulação imobiliária, que empurra os mais pobres para os lugares mais vulneráveis, também mata em Santa Catarina, na Bahia, em Minas Gerais… Sim, a tragédia climática fica muito pior com a pornográfica desigualdade social. Deslizamento de terra não acontece nos Jardins e na orla do Leblon.
Uma parcela estúpida, mas barulhenta, da sociedade defende com unhas e dentes que não existe aquecimento global e, consequentemente, alteração do clima. Pesquisa Datafolha de 2025 aponta que o total de brasileiros que afirma que as mudanças climáticas não são um risco cresceu de 5% para 9% em um ano. Ainda são poucos, mas sabemos que a estupidez viraliza rápido.
Políticos costumam agir somente diante dos estragos causados por desastres, como se tratassem de forma paliativa um paciente desenganado. Colocam capacete e bota para visitar os locais, fazem sobrevoos de helicóptero com beicinho de preocupação. Dessa forma, mortes por inundações, deslizamentos de terra ou ainda pela sede e pelo desespero de comunidades afetadas pela seca e pelo fogo foram se tornando parte do calendário anual do Brasil, como o Carnaval ou o Réveillon. Muitos até aproveitam para encarnar a imagem de heróis nas desgraças, ignorando que foram vilões da falta de ação no resto do tempo.





