Usar IA para responder ao parceiro é traição?
“Com o avanço da tecnologia, acredito que não só eu, mas muitas pessoas percebem que as relações têm apresentado uma liquidez maior, ou seja, mais instabilidade, menor duração e uma variação maior nos relacionamentos, principalmente quando comparamos com gerações passadas”, diz o psiquiatra. Ele ressalta que essa é uma percepção e aponta também o ritmo do cotidiano e o aumento das possibilidades de interação como fatores que podem influenciar as relações.
Já Araújo evita atribuir à tecnologia, por si só, uma fragilidade maior dos vínculos. Ela lembra que a ideia de “relações líquidas”, associada a Zygmunt Bauman, é anterior à popularização da IA. As ferramentas digitais podem facilitar o desaparecimento de uma conversa ou a substituição rápida de um vínculo, mas também ajudam a manter relações à distância e a aproximar pessoas que talvez não se conhecessem.
“A tecnologia não determina a qualidade do vínculo. Ela potencializa comportamentos humanos que já existem”, afirma a psicóloga. A IA acrescenta uma possibilidade a esse cenário, que é delegar à ferramenta parte da comunicação com o parceiro.
Para ela, a questão passa a ser quanto da experiência de se relacionar cada pessoa está disposta a terceirizar. “A IA pode ajudar a encontrar palavras. Mas intimidade exige algo que continua sendo responsabilidade de cada pessoa: estar presente, sustentar desconfortos (aqui é o mais complexo), assumir escolhas e se responsabilizar pelo que diz, escreve e faz”, reforça a especialista.





