Trump só quer michês, serviçais e escroques – 27/09/2026 – Mafalda Anjos
Quando se conseguir, com a devida distância temporal, imortalizar a História dessa era louca, um supervilão emergirá acima de todos os outros: Donald Trump.
A imaginação humana não conseguiria construir uma combinação tão rica e infame de características numa só pessoa: o narcisismo crônico, a indecência chocante, a ausência de empatia e respeito pelo outro, a ignorância tão obtusa e atrevida, o profundo desprezo pela verdade, a perversidade permanente dos intentos, a leviandade das decisões, a canalhice dos meios, a ridicularia infantil das falas, a repugnância física da figura…
Qualquer supervilão de trama política que fosse, há uns anos, idealizado desse jeito para o século 21 seria inverossímil de tão mau, simplesmente impossível de ser escolhido pelo povo americano duas vezes. Tão contranatura e distante dos mais básicos instintos de autopreservação como imaginar galinhas a convidar uma raposa para se instalar no galinheiro.
E, no entanto, aqui estamos, com a realidade a providenciar-nos espasmos permanentes de horror e o mundo a sofrer, todos os dias, as consequências desse homem aos comandos dos Estados Unidos, em tempos o país líder do mundo livre.
A História rezará também sobre as figuras, nacionais e internacionais, que, por interesse próprio, imoralidade, estupidez e/ou desespero, a ele se aliaram ou dele não se distanciaram. É que uma coisa ficou bem clara desde que Trump chegou ao poder: ele não quer parceiros políticos, quer michês, serviçais e escroques.
Os seus despudorados elogios públicos —tantas vezes dirigidos aos piores ditadores, opressores, autocratas e criminosos de guerra— são o maior atestado de vilania dos dias de hoje. Se Trump gosta, só pode ser mau.
A proximidade com Trump começa a ser um fardo difícil de sustentar para a direita. Até seguidores de outros países que o viram como padrinho, exemplo inspirador e financiador já querem distanciar-se dele. É que as opiniões públicas estão indignadas. Os ataques às soberanias dos seus países e, sobretudo, os aumentos que sentem no bolso devido às tarifas, à guerra no Irã e às consequências da leviandade trumpista falam mais alto.
Na Europa, nos últimos meses, os líderes da direita radical são cada vez mais vocais a censurar e a afastar-se de Trump. O britânico Nigel Farage confessou-se chocado com a ameaça de aniquilar a civilização do Irã.
A italiana Meloni não admitiu o ataque ao Papa Leão 14. Na França, os líderes do Rassemblement National criticam a sua política errática. Na Alemanha, Alice Weidel e Tino Chrupalla, da AfD, dizem-se desiludidos com a “política imperial” de Trump.
Até o oportunista português André Ventura criticou este sábado (26) o presidente americano e as consequências dos aumentos dos combustíveis. Não se trata de um súbito assomo coletivo de ética —é só pura estratégia de sobrevivência.
Já no Brasil, estranhamente, Flávio Bolsonaro nem sequer tenta disfarçar o “lambe-botismo” e o papel de “pau mandado” de Trump a que se candidata. Parece disposto a tudo para ser eleito, inclusive entregar a soberania do seu país ao maior vilão da história contemporânea.
Que os eleitores caiam nessa só pode ser ignorância ou credulidade. A mesma das galinhas que convidam a raposa para dormir no galinheiro.
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