Só entenderemos a crise política se formos capazes de falar de gênero
De saída, produzimos um problema sério. Homens precisam ficar com muitas mulheres; mulheres não devem ficar com muitos homens e o capital social de ambos vêm dessa dinâmica. Vai dar ruim logo ali, percebem?
Competir, acumular, concentrar poder, mater o pau duro, penetrar muitas mulheres, trair, admirar homens cheios de autoridade. A expressão que se popularizou recentemente e que fala em formar aura não é inocente e representa essa dinâmica do macho-alfa – aquele que é idolatrado por outros homens.
Não é por acaso que mulheres em situação de muito poder se comportem de formas diferentes, ainda que haja exceções (um beijo para Margareth Thatcher que descansa agora no colo de Lúcifer). Não se trata de uma diferença biológica, mas sim de uma diferença de criação. Mulheres não crescem dentro de uma frátria que contém machos-alfa que devem ser celebrados e honrados através de rituais que envolvem práticas de violências contra os mais fracos. Homens são socializados para amar uns aos outros, para admirar uns aos outros, para festejar uns aos outros, para querer a atenção uns dos outros. Mulheres são socializadas para olhar em volta e perceber o ambiente a fim de fazer a gestão emocional. Mulheres são socializadas para saber existir dentro do desconforto, para trabalhar em conciliações, para buscar o bem comum.
O núcleo familiar é um núcleo que doutrina sobre hierarquias e papeis de gênero. Papai manda, mamãe serve e obedece, filhos reproduzem heterossexualidade e repetem depois o que aprenderam em casa. Os Epsteins e Vorcaros nascem desse lugar. A traição masculina é central para que o poder seja distribuído. Festas, uísques, charutos, trabalhadoras sexuais e, em casa, suas famílias cristãs assistindo ao Jornal Nacional aprendendo que o problema do Brasil é a corrupção.
A corrupção deve ser combatida, mas ela é um subproduto do patriarcado, que é esse sistema descrito acima. Combater a corrupção é combater o sintoma; a doença é o regime binário da diferença sexual, que ensina meninos a se tornarem homens que sejam violentos, conquistadores, exploradores, competidores, acumuladores. Não haveria capitalismo sem as bases patriarcais. Ou começamos a falar de gênero e combater esse regime ou seguiremos lutando contra moinhos de vento.





