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Será que o shape falou tanto que desaprendemos a conversar


A ensaísta americana RS Benedict afirmou, certa vez, que o corpo deixou de ser um lugar para viver e ser feliz para virar um ativo a ser otimizado. Pense que exercício físico sempre foi uma coisa social: a pessoa dançava por prazer, jogava bola com os amigos, ia à quadra para estar perto de gente, malhava para ficar atraente e então encontrar outra pessoa. O objetivo final era o outro.

Hoje, viramos, nas palavras de Benedict, “ilhas perfeitas de autossuficiência emocional”. A gente malha para ser a melhor versão de si mesmo. E quando o eu vira o projeto mais importante da nossa vida (o corpo, a dieta, a rotina, a evolução pessoal, o “self-care”), todo o resto passa a competir por um tempo e uma energia que a gente não quer mais ceder.

Pois conversar exige paciência, escuta, disponibilidade… É aturar a opinião contrária, o assunto chato, o desabafo demorado. Diante de um projeto de otimização pessoal tão absorvente, o próximo virou uma despesa de energia que a gente decidiu cortar.

Há um efeito final nessa lógica, e é o mais triste. Se nós mesmos somos tão interessantes, tão otimizados, cheios de projetos, rotinas e evoluções, a gente simplesmente para de se interessar pelo outro.

A socióloga Sherry Turkle, do MIT, escreveu um livro inteiro sobre isso, chamado “Alone Together” (“sozinhos juntos”, em uma tradução livre). A tese dela é que a tecnologia nos deixou “menos conectados às pessoas e mais conectados a simulações delas”. A gente projetou ferramentas que oferecem “a ilusão de companhia sem as exigências da amizade”.

É isso que fazemos o dia inteiro. Trocamos mensagens infinitas com alguém e nunca marcamos de sair, acompanhamos a vida alheia pelos Stories, sabendo onde a pessoa viajou, e o que almoçou, mas nunca pegamos o telefone para ligar e perguntar, de verdade, como ela está. Reagir a um carrossel de fotos com o resumo do mês é mais prático que marcar um café. Sherry é certeira: queremos a conexão que a gente controla, sem o risco e a bagunça do encontro real.

Em tempos de sociedade da performance, a conversa periga virar algo transacional. Networking. Por isso pipocam tantos clubes fechados de gente parecida, com o mesmo hobby caro e o mesmo estilo de vida. Se não rende contato, oportunidade ou conteúdo, para que serve bater papo com alguém ao vivo e cores?



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