Religiosa, viu os desejos realizarem e a família crescer - 22/08/2026 - Cotidiano - FlaNotícias

Religiosa, viu os desejos realizarem e a família crescer – 22/08/2026 – Cotidiano


Para quem a via de fora, Therezinha era uma avó fofinha. Tinha cabelos de algodão e olhar sereno. Gostava de passear, de comer bem e, sobretudo, de se fazer presente. Mas quem a conhecia sabia que elogios como “lindinha” não a agradavam muito.

De família alagoana, cresceu em Maceió ao lado dos irmãos e, aos 22 anos, mudou-se para a capital paulista. Filha do major Rijo e de Ismenia, conheceu Paulo Furtado aos 29 anos, em um baile de Carnaval no Palmeiras. Por isso, apesar do marido santista, se dizia palmeirense.

Juntos, mesmo diante dos percalços da vida, tiveram quatro filhos —Thelma, Yara, Paula e Marcelo— e permaneceram juntos até a partida de Paulo, no fim dos anos 1990.

Como mãe, Therezinha foi rígida. Cobrava dos filhos bons resultados na escola e organização. Com os netos, a rigidez deu lugar a uma avó mais carinhosa —embora houvesse limites: temia que os meninos quebrassem os vasos quando brincavam de bola no quintal e não gostava quando a bola acabava na casa da vizinha.

Com as netas, tinha seus próprios jeitos de demonstrar carinho. Estalava-lhes os dedos dos pés e fazia cafuné à sua maneira. Foram sete netos ao todo, tantos que, vez ou outra, Therezinha se atrapalhava com os nomes. Albieri, um dos cachorros que teve ao longo da vida, às vezes entrava na confusão e acabava chamado pelo nome de um dos netos —ou vice-versa.

Quem chegava para visitá-la era recebido com um animado “oi, fia!”, acompanhado dos bracinhos levantados. Gostava de ter gente por perto, de passear e de comer. E, boa de garfo como era, a mesa, assim como a casa, era também um lugar de encontro.

Se irritava quando oferecia algo para os netos comerem e ouvia uma negativa. Até um dos episódios que os netos mais repetem foi quando parte deles passava uma tarde em sua casa, ela reclamou que ninguém comia o que ela oferecia e quando todos pediram um ovo frito, ela não pensou duas vezes e delegou a tarefa para a irmã, Anadia: “Dia, três ovos!”.

Fez amigas no bairro e na igreja e participava de grupos de oração. Católica, frequentou a igreja durante boa parte da vida e rezava diariamente. Quando a condição física já não permitia que saísse de casa, passou a acompanhar as missas pela televisão.

Foi na mesma casa, no Brooklin, que Therezinha criou os filhos e ajudou a cuidar dos netos. Com o passar dos anos, os papéis foram aos poucos se invertendo. A família que ela havia cuidado passou a se desdobrar para cuidar dela.

Therezinha, porém, parecia ter uma capacidade particular de surpreender a todos. Na família, ganhou apelidos como “Highlander” e “fênix”: mesmo depois dos quadros mais complicados, dava um jeito de se recuperar e voltar para casa.

Não chegou aos 200 anos, como brincava a família, nem aos 100, como ela própria desejava. Mas teve tempo de realizar os desejos que ainda guardava.

Queria viver para ver um dos netos se casar. No último ano, conseguiu mais do que pediu: viu dois dos netos se casarem. E, neste ano, chegou Elisa, sua primeira bisneta, completando a pequena lista de coisas que Therezinha ainda queria testemunhar.

Ficaram os cafunés, os dedos do pé estalados, um nome trocado, uma oração e os bracinhos levantados para receber quem chegava. Lembranças de Therezinha que, para quem a conheceu, era impossível confundi-la com qualquer outra.

Ela morreu na terça-feira (18), aos 95 anos, e deixou os 4 filhos, 3 genros, 1 nora, 7 netos e 1 bisneta. A missa de sétimo dia será realizada na terça (25), às 18h na Paróquia São João de Brito (r. Nebraska, 868).

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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