por que aceitamos que máquinas decidam por nós?
Nelson Rodrigues dizia que “se o vídeo diz que foi pênalti, pior para o videotape”. O pensamento, resumido na expressão “o videotape é burro”, marcou uma geração que aprendia a lidar com as maravilhas de se controlar o tempo através do lance gravado e passível de ser visto e revisto. Não por outra razão o nome que pegou por essas bandas era “tira-teima”.
De lá para cá o controle sobre o que realmente se passou no lance do gol ou do impedimento só fez aumentar. Hoje o futebol se joga com sensores inerciais, visão computacional, chip dentro da bola e câmeras em todos os cantos. A nossa aversão ao erro e o controle oferecido pela tecnologia fizeram uma dobradinha que botou as máquinas em campo – e talvez tenha colocado o olhar humano no banco de reservas.
O videotape era burro não porque via mal, mas porque ele, sozinho, não era capaz de interpretar as regras. Hoje o chip detecta o toque no cabelo, mas não sabe dizer o impacto disso para o futebol que estava sendo jogado.
Os professores Urs Gasser e Viktor Mayer-Schönberger, no recente livro Guardrails – palavra em inglês que significa algo como “barreiras de contenção” – fazem a ponte entre esse conceito e a necessidade humana de decidir em um mundo permeado pela objetividade das máquinas. Os autores apontam que toda sociedade precisa de barreiras de proteção para orientar decisões, como as leis, regras e protocolos, mas que a tentação da nossa época é converter essas barreiras em muros de uma prisão, substituindo a interpretação pela automação. O detalhe é que as regras nunca foram desenhadas para serem aplicadas com perfeição milimétrica, mas sim interpretadas, servindo de guia para a decisão.
A regra do impedimento existe para coibir a vantagem desleal do atleta que se posiciona na frente do marcador. A mesma regra deveria valer quando o avanço é de centímetro, sem real vantagem na jogada? Gasser e Mayer-Schönberger insistem que boas guardrails preservam espaço para a decisão, inclusive para o erro humano, porque é nesse espaço que cabem o contexto, a proporção e a possibilidade de rever o próprio critério.
O árbitro nessa Copa é o retrato do que acontece quando as barreiras de proteção que nos dão segurança para decidir, como as regras do jogo, a filmagem da partida e toda a tecnologia embutida, tomam a dianteira e nos alienam. No cantinho do VAR, diante do vídeo acompanhado nos telões dos estádios e nas telas das TVs e dos celulares de milhões de pessoas ao mesmo tempo, o juiz mais homologa do que decide.
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