Eu falo bastante de Neymar. Falo há muitos anos, porque ele é o jogador brasileiro mais relevante dos últimos 15 anos e é, também, um produto de marketing de inegável sucesso. Tem tanta coisa em volta de Neymar que o rapaz é um prato de cheio de assuntos. Neymar pode ser olhado pela ótica do futebol jogado, da relação jogador-treinador, pela ótica das decisões de carreira, das premiações individuais em um esporte coletivo, pela ótica parental, pelo ângulo do tempo livre e o que fazer com ele, da fragilidade intelectual da juventude milennial, até que ponto o que fazem celebridades é ou não relevante, do quanto marcas ajudam ou atrapalham um atleta e, claro, até mesmo do ângulo político, já que Neymar esteve bastante engajado em 2018, 2022 e possivelmente estará agora de novo.

Eu defendo a ideia de que Neymar fique fora da seleção desde que acabou a Copa do Mundo do Qatar. Que a seleção tivesse um ciclo inteiro sem ele e, se estivesse arrebentando nos seis meses anteriores à Copa , fosse chamado. No meu ponto de vista, o pacote Neymar não vale à pena. Ele não faz o suficiente no campo para compensar todo o negativo que traz a presença dele. Mas não é sobre isso o que quero falar.

O ponto é: Neymar é o debate mais quente da sociedade brasileira no momento. Logo logo, será Lula x família Bolsonaro. Mas, nos próximos dois meses, é Neymar. Este é um debate que ferve nos grupos de zap, nas mesas de bar, nos churrascos, nos bares, em qualquer lugar. Ele é um ótimo debate, porque essencialmente pode ser simplificado à valorização do indivíduo (quero sempre ter do meu lado quem é melhor, mesmo que não seja confiável) versus a valorização do coletivo e a tentativa de criar um trabalho de sucesso com participação de todos e esforço por cima do indivíduo.

Esse debate serve para um monte de coisas com as quais lidamos no dia a dia. Na escola, na universidade, na criação de filhos, no ambiente de trabalho, em empreendimentos, escolhas de sócios, nas escolhas que fazemos. Em algumas sociedades, este debate seria tão quente quanto é aqui no Brasil. Em outras, este debate seria simplesmente inexistente.

Aí chegamos à Vila Belmiro. Neymar jogou. E do outro lado estavam dois jogadores que ficaram muito marcados pela Copa do Mundo de 2014: Hulk e Bernard. Um era titular daquela seleção e foi um dos que pagaram o preço do 7 a 1. O outro era simplesmente o reserva de Neymar, machucado nas quartas de final. Para ambos, a pergunta era mais do que válida. Para o Moisés ou o Arana ou o Veríssimo ou o Victor Hugo ou para mim ou para você, seria absolutamente irrelevante.

Para o Hulk, no meu ponto de vista, era. Eu estaria orgulhoso se fosse o chefe do Guto Rabelo. Me importa pouco se a ideia foi dele ou se veio ordem de cima, como se especula, até porque “ordem de cima” ou “sugestão de cima” em uma transmissão vem de quem está comandando e isso faz parte do nosso universo. E mais: a pergunta foi muito bem construída. O tema pode até ser considerado deselegante. A pergunta, não foi. E jornalismo não é elegância, é informação, é relevância, é respeito, principalmente com a audiência.





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