Paixão por tarifa – 31/07/2026 – Demétrio Magnoli
Tarifa, “palavra mais bela”, é a paixão de Trump. Sua inclemente guerra tarifária não é irracional, como tantos dizem. Como diversas modalidades de política econômica ideológica, tem método. De acordo com o presidente apaixonado, tarifas cumpririam três funções distintas: substituição de importações, arrecadação governamental e exercício de poder geopolítico.
O mundo explora os EUA, invadindo seu mercado interno, imagina Trump. A muralha tarifária serviria para reduzir importações, impulsionando uma reindustrialização. É uma visão nostálgica, que remete à “era de ouro” da Tarifa McKinley (1890), suposta plataforma da arrancada industrial americana.
Trump não compreende a dinâmica das economias avançadas, que saltam rumo ao setor de serviços e às indústrias de alta tecnologia. A prova está à mão: sob seu atual mandato, o crescimento industrial dos EUA reflete os investimentos em IA, enquanto a indústria tradicional continua a declinar. Mais: o vasto déficit comercial dos EUA diminuiu insignificantes 0,2% em 2025.
Ironia: a Tarifa McKinley provocou uma avassaladora derrota eleitoral dos republicanos, rejeitados por eleitores furiosos com a inflação. Hoje, o Canadá estuda aplicar imposto de exportação sobre o seu petróleo, que flui para os EUA. Diante das eleições para o Congresso americano, o Brasil pode contribuir no repique inflacionário por meio de retaliações cirúrgicas similares.
Tarifas são impostos –mas impostos regressivos, que atingem uniformemente pobres e ricos. Desde 1890, pelas três décadas seguintes, as tarifas representaram a maior parte da arrecadação do governo americano. Trump é refém da utopia de restaurar aquela “era de ouro”, utilizando a receita tarifária para reduzir outros impostos e financiar a elevação das despesas militares.
O truque funciona apenas no horizonte de curto prazo. Para surpresa de Trump, o mundo adapta-se ao neoprotecionismo americano, reconfigurando a globalização. A guerra tarifária desvia intercâmbios de bens e investimentos para fora dos EUA. A China exporta mais, não menos, que antes do retorno de Trump à Casa Branca. O Brasil vai pelo mesmo caminho.
A melhor reação de médio prazo à agressão tarifária é reduzir tarifas de importação para os concorrentes dos EUA, o que diversificaria e alavancaria nossas exportações. Infelizmente, ao anunciar o programa Brasil Soberano 3, de subsídios aos setores tarifados, o governo segue rumo oposto, reiterando nossa tradição protecionista.
Na lógica de Trump, tarifas operam como mísseis balísticos. Seriam ferramentas destinadas à conquista: “demonstrar quem é dominante e quem deve se submeter”, na síntese de Chrystia Freeland, ex-ministra do Exterior canadense.
Nem sempre funciona. A Europa desistiu de retaliar, curvando-se a um acordo comercial desigual para preservar a Otan na hora da agressão imperial russa. A Índia ajoelhou-se, pois teme o poderio chinês e já não conta com a ajuda bélica russa. A China, porém, retaliou com sucesso, ao ensaiar o uso de controles de exportação de minérios estratégicos. O Canadá reage, mesmo dependendo do mercado americano para mais de 70% de suas exportações, porque descobriu a regra do jogo: “Dizer sim à Casa Branca apenas convida a mais exigências, até que se estabeleça total submissão” (Freeland).
Sacou o recado, Lula?
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.





