'Nem Tudo É Paz e Amor' faz mosaico afetivo da MPB - 27/08/2026 - Ilustrada - FlaNotícias

‘Nem Tudo É Paz e Amor’ faz mosaico afetivo da MPB – 27/08/2026 – Ilustrada


Betão Aguiar é um cineasta singular. Passando longe de escolas e correntes cinematográficas, ele veio da música e sua produção de documentários deixa isso escancarado. De certa forma, o diretor veio biologicamente da música, pois é filho de Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, e da produtora Marília Aguiar. E seus pais estão entre os personagens de seu filme mais recente, “Nem Tudo É Paz e Amor”, que chega agora aos cinemas.

A produção de documentários musicais segue forte. São inúmeros títulos nos últimos anos. Mas nenhum vai se aproximar do fio condutor do projeto de Aguiar. O filme é uma espécie de terapia familiar espalhada por vários núcleos diferentes. Basicamente, são relatos e comentários de filhos a respeito de seus pais. O que faz a ligação de todo esse elenco? Todos os progenitores são cantores e músicos que surgiram ao público na efervescência dos anos 1970.

Além de Novos Baianos, a seleção que aparece na tela pode fazer um retrato acurado de uma fatia criativa e nada convencional da MPB setentista. De Caetano Veloso a Itamar Assumpção, passando por Rita Lee e Gilberto Gil, o roteiro permite até um olhar sobre Glauber Rocha. É uma presença até natural, sustentada pela delirante produção cultural do cineasta baiano, que teve influência generalizada nessa geração de músicos.

“Nem Tudo É Paz e Amor” se sustenta basicamente entre depoimentos recentes das gerações mais novas e filmes caseiros antigos ou obras do cinema underground que espelham a inquietude dos anos 1960 e 1970. Chega a ser engraçado perceber que a qualidade técnica dos filmes amadores e da produção “udigrúdi” não chega a ser muito diferente nos dois tipos de audiovisual.

Quem assiste vai reconhecer alguns filhos famosos, como Beto Lee, herdeiro de Rita e Roberto, ou a hoje pastora Sarah Sheeva, da prole de Baby e Pepeu. Mas o depoimento mais didático e reflexivo, e por isso mesmo mais constante durante o documentário, é de Moreno Veloso. Nele se concentram as melhores observações sobre a representatividade dos pais.

O primogênito de Caetano defende que sua geração avançou pelo caminho pavimentado por seus pais. Ressalta a importância de toda uma geração da MPB na legitimidade de muitas aceitações sociais e comportamentais: aceitação das drogas, do sexo, da negritude e mais uma lista daquilo que pode ser chamado “tabu”.

Moreno, que grava sua participação em um estúdio, cercado de instrumentos, oferecendo ínfimas doses de batuques e acordes entre suas declarações, assume quase um ar professoral, enquanto a grande maioria prefere uma observação divertida sobre os pais. Afinal, é muito maluco junto. Muito se falou que o melhor dos shows de nomes como Moraes Moreira às vezes poderia estar nas histórias engraçadíssimas do tempo dos Novos Baianos que ele contava no palco, entre uma canção e outra.

O que fica depois dos agradáveis relatos que constroem esse documentário é a curiosa descoberta de que filhos da contracultura moldaram suas personalidades alimentados pelo comportamento nada convencional dos pais, mas muitas vezes também enxergam neles um exagero. Caretice? Ou será que os descendentes carregam uma espécie de contestação natural de uma geração para outra?

“Nem Tudo É Paz e Amor” não merece ser rotulado simplesmente como documentário musical. A oferta sonora de canções quase não existe, está apenas em trechos muito curtos, quase flashes. A proposta é realmente uma discussão comportamental, com foco na observação de uma geração pela sua sucessora.

Os Novos Baianos e seus contemporâneos produziram música inusitada, com misturas surpreendentes, e elas são reflexos de um comportamento até certo ponto incomum, e por isso influenciador de mentes inquietas.

Em muitos momentos, o filme parece mesmo conversa de família, naquelas reuniões que se alongam por horas e, no fim daquele convívio, reacendem memórias engraçadas. É nesse clima de lembranças íntimas que Betão Aguiar consegue construir um mosaico da fartura de talento e ausência de conformismo de uma geração que ofereceu ao público uma música contestadora e atraente.



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