Mercado vê contradições de Flávio na economia, mas dá benefício da dúvida
A expectativa ficou evidente no comportamento dos mercados logo após o resultado do primeiro turno, que mostrou Flávio Bolsonaro à frente de Lula (PT). O Ibovespa, principal índice da Bolsa, subiu mais de 7% na segunda-feira (5), e o dólar caiu mais de 4%. A avaliação dos executivos ouvidos pela reportagem é de que, mesmo com algumas sinalizações em sentido contrário, a expectativa se mantém.
Uma proposta citada pela candidatura de Flávio é a criação de um teto de gastos para quando a relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto) estiver em patamar elevado. Hoje essa relação está em 82%, sendo que o patamar considerado seguro pelo mercado para economias emergentes está na casa dos 65%. Portanto, por essa proposta, o país passaria alguns anos sob um regime de teto de gastos, o que dificultaria a manutenção de políticas como a do aumento real do salário mínimo, destaca outro executivo.
Outra proposta de Flávio para o ajuste fiscal envolve a venda de imóveis públicos. Nesse caso, o ajuste seria focado em receitas não recorrentes e não passaria por medidas mais amargas sobre benefícios sociais. A proposta é semelhante à feita pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes, no governo Jair Bolsonaro. Na época, Guedes projetava a venda de R$ 1 trilhão em imóveis, mas a arrecadação ficou em cerca de R$ 833 milhões nos quatro anos de governo.
Já a proposta de congelar dívidas de pessoas físicas e jurídicas, citada por Flávio em debate, ficou pouco clara. A depender do modelo adotado, a inadimplência pode não subir por um tempo, mas depois explodiria com a retomada das cobranças, avalia um executivo.
Nenhuma dessas propostas está no plano de governo apresentado pelo candidato. O texto fala de forma mais vaga sobre um “grande tesouraço” e sobre enxugar a máquina pública, cita redução de ministérios e a retomada das privatizações. Também fala em uma reformulação das regras fiscais, com foco em redução da dívida pública e queda da relação dívida/PIB “no menor prazo possível”, sem dar detalhes de quais seriam as novas regras.
Benefício da dúvida
A falta de clareza na área econômica é vista como parte da campanha eleitoral e é apontada também como algo feito pela campanha de Lula. “É campanha. Assim como vemos a do Lula falando em responsabilidade fiscal, o Flávio fala que vai cortar gastos, mas não vai mudar benefícios”, disse um dos executivos de banco ouvidos pela reportagem.





