Meio político, meio influenciador, meio confuso
Quem é capaz de estabelecer um diálogo eficiente com seu público nos canais digitais é quem compreende a lógica descentralizada e interconectada das bolhas que se sobrepõem. No espaço granular das conversas e posts compartilhados por “alguém que conhece alguém que eu também conheço” se foram os núcleos de relacionamento. Então, fortalecidas pelo eco dos semelhantes, a soma desses pequenos grupos se converte em vetores de difusão de massa. Começam da ponta e depois ganham volume, na contramão do fluxo tradicional de comunicação.
Quando o consumo de informação se fragmenta dessa forma, as bolhas viram universos. Estratégias de comunicação precisam mirar os microcosmos informacionais. Porque ali dentro a percepção é comum e a visão de mundo se propaga e ecoa. Vem daí a nossa impressão recorrente de que “todo mundo” pensa como nós (ou vai no mesmo evento, ou usa a mesma roupa ou vota no mesmo candidato). Não é todo mundo, são as nossas bolhas.
Erra, portanto, quem insiste em usar a internet adotando a mesma lógica difusora da televisão. Se por um lado, isso dificulta a criação de um grande movimento formador de opinião, por outro essa dinâmica funciona para que se possam testar milhares de formatos e mensagens diferentes em pequenos grupos e analisar, em tempo real, o que toma forma e tem potencial de ganhar escala.
Não significa que seja fácil. As vozes tradicionais penam para furar essa resistência e, nesse contexto, surgem criadores de conteúdo preenchendo o vácuo e atuando como vetores de mensagens dos mais diversos matizes. Na maior parte, não são jornalistas, mas criadores de conteúdo comentando o noticiário. Mas, vem daí – do advento da creator economy – a ascensão de páginas, podcasts e canais de vídeo na formação de opinião pública (vídeo, a propósito, é o formato favorito dos usuários que seguem esses criadores).
O Digital News Report do Reuters Institute, principal pesquisa que captura o retrato do consumo de notícias no mundo, revelou que entre os brasileiros que usam redes sociais e vídeos para acessar notícias, 33% dizem prestar mais atenção a influenciadores, contra 30% que preferem veículos jornalísticos e jornalistas. Atribuem a eles mais credibilidade, alegam que são mais fáceis de entender, acham divertido e nutrem um senso de identificação e comunidade com os demais seguidores.
Essas vozes que nascem nas redes têm o domínio da linguagem. Ainda que congreguem milhões de seguidores, preservam o ambiente de informalidade com menos barreiras para assimilação. Com isso, ganham poder de influência e credibilidade (enquanto veículos tradicionais perdem reputação).





