Jovens magnatas da China evitam imprensa e política – 20/07/2026 – Economia
No início do ano passado, quando a DeepSeek, um laboratório chinês de inteligência artificial, estava causando pânico nos rivais ocidentais, pouco se sabia sobre Liang Wenfeng, fundador da empresa.
Liang continua sendo uma figura misteriosa, mas pelo menos uma coisa está clara. Com a DeepSeek fechando uma rodada de financiamento que a avalia em US$ 71 bilhões (R$ 362,70 bilhões), a fortuna pessoal dele disparou para cerca de US$ 38 bilhões (R$ 194,12 bilhões) —tornando-o muito mais rico do que Dario Amodei, da Anthropic, ou Sam Altman, da OpenAI.
Liang não será visto no circuito de conferências. Ele nunca apareceu ao vivo na televisão chinesa, e existem poucas fotos ou filmagens dele. Isso o coloca em sintonia com a nova geração de jovens bilionários chineses. O país está produzindo mais deles do que qualquer outro lugar, exceto os Estados Unidos.
Segundo a Hurun, que monitora a riqueza das pessoas mais ricas do mundo, havia pelo menos 29 bilionários que construíram fortunas do zero com 40 anos ou menos na China em 2026. Incluindo Liang, que completa 41 anos neste ano, o total chega a 30. São nove a mais do que no ano passado.
Os novos magnatas chineses diferem dos predecessores. Eles trocaram a especulação imobiliária e os jantares regados a álcool com autoridades por videogames e encontros em torno de animes japoneses. Também são hábeis transformar ideias criativas em negócios globais mais rápido do que qualquer um antes deles.
A história dos super-ricos da China é curta. Nos anos 1980, descobriram como arrancar ativos do Estado. Zhang Ruimin, membro de um grupo de estudantes que aterrorizava professores e intelectuais durante a era de Mao, assumiu uma empresa estatal de refrigeradores chamada Haier e a transformou no que hoje é a maior fabricante de eletrodomésticos do mundo. A abertura do mercado imobiliário nos anos 1990 criou outro grupo inicial de bilionários, incluindo Xu Jiayin, fundador da Evergrande, incorporadora imobiliária que hoje está falida.
No início dos anos 2000, industriais como Wang Chuanfu, da BYD, originalmente uma fabricante de baterias, lançaram uma onda de empresas manufatureiras quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio. Nos anos 2010, a internet de consumo produziu a primeira geração de magnatas da tecnologia na China, incluindo Jack Ma, do Alibaba, gigante do comércio eletrônico, e Pony Ma, da Tencent, criadora do WeChat.
Os fundadores da ByteDance, criadora do TikTok, e da Shein, a empresa de moda rápida online, construíram suas fortunas alguns anos depois. Ambos estão, hoje, no início dos 40 anos.
A nova geração de magnatas da China está traçando um caminho diferente. Mais de dois terços dos jovens bilionários na lista da Hurun fizeram seu dinheiro com bens de consumo ou mídia.
Sete criaram videogames; quatro construíram negócios de chá ou café. Depois de Liang, do DeepSeek, o mais rico é Wang Ning, fundador da Pop Mart, que vende Labubus, bonecas de aparência estranha. Apenas três enriqueceram com IA, incluindo Yang Zhilin, 34, fundador da Moonshot AI, que em 17 de julho lançou um novo modelo que supostamente rivaliza com os melhores dos Estados Unidos.
Nenhum magnata imobiliário aparece na lista —talvez sem surpresa, dado o desempenho do setor nos últimos anos.
Os negócios construídos pelos novos bilionários da China também são muito mais globais do que no passado. Antes, levava uma década ou mais para empreendedores chineses descobrirem como expandir para o exterior. Não mais. Zhang Junjie, fundador de 33 anos da Chagee, uma loja de chá com leite, fundou a empresa em 2017 e abriu primeira loja no exterior apenas dois anos depois. A empresa está listada em Nova York e opera em nove países.
A forte dependência dos novos magnatas em mercados estrangeiros reflete, em parte, a queda nos gastos do consumidor doméstico. Cerca de 80% das vendas da Dreame, marca de eletrônicos de consumo fundada por Yu Hao, 39, vêm do exterior. A Insta360, empresa de câmeras pequenas e à prova d’água, também depende da demanda estrangeira. A Pop Mart faturou mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,22 bilhões) em vendas fora da China no ano passado, cerca de 40% do total. As vendas da Chagee na China despencaram, mas no exterior estão crescendo de forma saudável.
As atitudes em relação ao trabalho também mudaram. Uma parte controversa da cultura empresarial chinesa na última década ou mais tem sido a chamada rotina “996”, trabalhando das 9h às 21h, seis dias por semana. A ideia foi defendida por Jack Ma, do Alibaba, e adotada por outros gigantes locais de tecnologia. Na Pinduoduo, outra plataforma de comércio eletrônico, jovens funcionários de escritório morreram de excesso de trabalho no caminho de volta do escritório para casa.
Os novos empreendedores da China, em contraste, adotaram um estilo de gestão mais relaxado. Muitos são comparativamente flexíveis quanto aos horários de trabalho. Liu Wei, 39, bilionário cofundador da miHoYo, empresa de jogos, coordenou o que a empresa chama de abordagem “trabalho feliz, crescimento estável”, que prioriza a saúde mental (embora um funcionário tenha morrido recentemente de complicações relacionadas ao excesso de trabalho, mostrando normas culturais são difíceis de mudar).
Liang, da DeepSeek, teria dito que o cérebro humano só consegue se concentrar por 6 a 8 horas por dia, e que o excesso de trabalho leva a erros.
A disposição de trabalhar mais horas do que qualquer outra pessoa no mundo é o que construiu a economia chinesa nos últimos 30 anos, resmunga um investidor de private equity que recentemente visitou uma marca de consumo em ascensão e não gostou do que viu.
Alguns atribuem a atitude relativamente descontraída dos jovens fundadores chineses a criações confortáveis. Ficaram para trás as histórias contadas por magnatas anteriores sobre lutar pela sobrevivência em meio às convulsões políticas e econômicas do país.
Entre os jovens bilionários da China, apenas Liang e Zhang, da Chagee, cresceram pobres. Os três fundadores da miHoYo originalmente se uniram por desenhos japoneses e formaram sua empresa como uma celebração de jogos e quadrinhos. O fundador da MiniMax, laboratório de IA, é tão fã de um jogo multiplayer chamado “Dota 2” que sua equipe o chama de “IO”, um personagem do jogo.
Enriquecer é perigoso
Nem tudo são flores para os jovens bilionários da China. A relação entre o governo chinês e as pessoas mais ricas do país se deteriorou nos últimos anos. Magnatas mais velhos antes se viam como parte de um projeto de construção nacional. O setor imobiliário, que contribuiu com até um quarto do PIB da China em seu auge, foi um esforço colaborativo entre empreendedores privados e autoridades locais. Jack Ma foi fundamental na construção da economia digital da China.
Mas o governo central agora puniu muitas figuras proeminentes dessas áreas. A alavancagem foi sugada do setor imobiliário. O império empresarial de Ma tornou-se alvo de repressão estatal em 2020, depois que ele criticou reguladores. Xi Jinping, o líder da China, buscou conter a desigualdade sob o slogan de “prosperidade comum”.
Em 2021, Zhong Shanshan, 71, fundador da Nongfu, fabricante de água engarrafada, chegou a acumular fortuna de quase US$ 100 bilhões (511 bilhões). Desde então, ninguém se aproximou desse patamar —nem o próprio Zhong, cuja riqueza encolheu para cerca de US$ 39 bilhões (R$ 199,2 bilhões), acompanhando a forte queda das ações da empresa. A fortuna de Jack Ma, hoje, equivale a aproximadamente um quinto do que era em 2021, e outros magnatas da internet sofreram perdas semelhantes. Ainda assim, saíram-se melhor do que os magnatas do setor imobiliário, vários dos quais acabaram detidos.
Esse ambiente criou uma sensação de desilusão entre os jovens bilionários da China. Muitos estão ansiosos para se envolver em política industrial, mas têm poucas oportunidades de fazê-lo, observa Steven Hai, da Universidade Xi’an Jiaotong-Liverpool.
As ambições globais também os deixam expostos à deterioração das relações entre China e Estados Unidos. Xiao Hong, o fundador de 33 anos da Manus, outra empresa de IA, teria se tornado bilionário no início deste ano se o governo chinês não o tivesse impedido de vender sua empresa para a Meta, gigante americana de tecnologia.
Essas pessoas vivem com a sensação de que os negócios podem ser descarrilados a qualquer momento por mudanças repentinas de política na China ou nos Estados Unidos, observa Rupert Hoogewerf, da Hurun. Ao evitar publicidade, eles parecem acreditar que podem sobreviver por mais tempo, diz ele.
A maioria dos jovens bilionários chineses nunca falou com a mídia estrangeira —nenhum quis falar com a Economist. Muitos evitam a imprensa chinesa também. O resultado é uma geração de magnatas que é, ao mesmo tempo, a mais global da China e a mais enigmática.
Texto do The Economist, traduzido por Guilherme W. Almeida, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com





