IAs são ótimas, mas não para substituir um sacerdote – 12/08/2026 – Cotidiano
Pastorear sempre envolveu estar presente na vida das pessoas. Isso inclui visitar casas e hospitais e receber os fiéis nos escritórios das igrejas para aconselhamento. Com o avanço da inteligência artificial, alguns pastores começaram a redefinir essa atuação, criando avatares capazes de orientar, em seu lugar, quem os procura.
O argumento é que essas ferramentas permitem assistir mais pessoas. Mas até que ponto essa suposta otimização compromete a própria essência do cuidado que um líder religioso oferece aos seus fiéis? Falo como pastor, mas penso que o dilema seja comum a todas as religiões.
Uma reportagem publicada recentemente pelo New York Times apresentou a experiência de Justin Lester, pastor da Friendship Baptist Church, na Califórnia. Lester criou um avatar de inteligência artificial alimentado com cerca de dois milhões de palavras extraídas de seus sermões, leituras e correspondências.
O objetivo é fazer com que o sistema reproduza sua voz, seu modo de falar, suas referências bíblicas e algumas características de sua personalidade. Assim, por texto, telefone ou vídeo, qualquer pessoa pode conversar com essa versão digital do pastor a qualquer hora.
Quando li a matéria, me lembrei de um episódio narrado no Evangelho de Marcos (1.35-38). Certa madrugada, Jesus se retirou para um lugar deserto. Ao encontrá-lo, os discípulos disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus, porém, não voltou para atender àquela demanda. Preferiu seguir para outro lugar. O texto me serve como lembrança de que quem cuida de pessoas também precisa reconhecer que nem toda demanda é uma missão.
Líderes religiosos sempre conviveram com demandas que ultrapassam sua disponibilidade. Pessoas adoecem, enfrentam crises conjugais, questionam a fé e procuram orientação em horários imprevisíveis. Nem sempre é possível atendê-las. Quando isso acontece, elas esperam ou procuram outra pessoa. E o cuidado recebido não perde o valor por isso.
A ideia de que um avatar deve ocupar o espaço que o pastor não consegue preencher revela certo personalismo. Seria um problema se outra pessoa capacitada oferecesse cuidado naquele momento? Por que preferir uma presença simulada ao cuidado real de alguém que pode estar presente? Em 20 anos de atividade pastoral, nunca ouvi alguém dizer que o cuidado recebido perdeu o valor porque não veio do pastor que procurava.
Há ainda uma questão teológica que me intriga. No caso da fé cristã, a presença encarnada não é um detalhe, mas parte essencial do modo como Deus cuida. O cristianismo nasce da afirmação de que Deus se fez carne e habitou entre nós. Jesus não enviou uma simulação de si mesmo. Assumiu um corpo, entrou na história, sentou-se à mesa, tocou pessoas, chorou diante da morte e se deixou alcançar pelo sofrimento humano.
A criação de pastores artificiais corre na direção oposta ao movimento da encarnação. Também ignora que o ministério pastoral não se resume a oferecer boas respostas. Muitos aconselhamentos ficam na memória menos pelo que foi dito do que pelo abraço recebido, pela oração feita e pela presença de alguém que decidiu estar ali.
Um avatar pode repetir as convicções de um pastor, mas não assume responsabilidade pelo que diz. Não conhece por inteiro a história de quem o procura nem estará presente para acompanhar o que acontece depois.
Sou um entusiasta do uso da tecnologia pelas igrejas e demais organizações religiosas. Mas quanto de sua humanidade os líderes estarão dispostos a abdicar em nome de uma eficiência que suprime justamente o que há de mais importante em sua vocação?





