Foto de elefanta com filhote morto revela luto animal – 17/10/2026 – Ciência
O fotógrafo Federico Veronesi presenciou uma cena comovente enquanto acompanhava uma manada de elefantes caminhando ao longo do leito de um rio seco no deserto da Namíbia, em setembro de 2025.
Ele encontrou uma fêmea carregando um filhote natimorto, com suas pernas minúsculas entrelaçadas na tromba e seu corpo flácido balançando no ar.
“Foi um momento íntimo, quase espiritual”, relembra Veronesi. “O bebê ainda estava mole e totalmente intacto. Ele ainda não havia se enrijecido. Claramente, ele havia nascido à noite ou, talvez, poucas horas antes.”
À primeira vista, aquela cena triste parecia mostrar o luto de uma mãe. Mas Veronesi viria a descobrir um detalhe surpreendente naquele raro comportamento, revelando uma sensibilidade ainda mais complexa do que parecia inicialmente.
Veronesi acompanhou a manada por várias horas e fez fotos verdadeiramente marcantes. E uma delas (a imagem abaixo) ganhou o primeiro prêmio do concurso Fotógrafo da Vida Selvagem do Ano de 2026, promovido pelo Museu de História Natural de Londres.
A elefanta passou horas carregando o filhote. De vez em quando, ela se sentava para comer ou beber água, pegava o natimorto novamente e prosseguia em sua jornada pelo rio Huab, segundo Veronesi.
“Eu pensei, ‘Esta é uma cena muito triste, mas precisa ser observada'”, relembra o fotógrafo. “Esta foto deixa claro o quanto esses elefantes sofrem, como eles têm sentimentos complexos, que as pessoas talvez não associem aos animais.”
Veronesi acabou descobrindo que o filhote natimorto que a elefanta carregava não era dela.
“Ela não é a mãe”, afirma Christin Winter, diretora de programas de conservação da ONG Elephant Human Relations Aid (Auxílio às Relações entre Elefantes e Seres Humanos, EHRA), que trabalha para proteger os elefantes do deserto da Namíbia.
A fêmea, agora com 14 anos, perdeu seu filhote dois anos atrás. Desde então, ela já foi vista carregando os filhotes natimortos de outras mães em quatro ocasiões diferentes, segundo Winter. É a primeira vez que este comportamento é documentado na região, explica ela.
Para Veronesi, esta revelação “certamente agrega ainda mais profundidade sobre as emoções destas criaturas”.
“O comportamento desta fêmea após a sua perda é ainda mais comovente. É como se ela tentasse se reconectar com seu próprio filhote, sem ter ainda se recuperado daquela perda, ao longo dos anos.”
As emoções dos elefantes
Existem algumas teorias que tentam explicar por que a elefanta carregou o filhote por tanto tempo. Este comportamento pode ser algum tipo de “processamento emocional”, segundo Winter.
“Talvez fosse uma forma de processar a morte por ela ainda não ser capaz de se desapegar”, explica ela. “Ela pode ter ficado traumatizada por perder seu filhote e, por isso, adota este comportamento sempre que algum deles morre.”
Talvez ela também estivesse tentando proteger o corpo do filhote dos predadores, afirma Winter.
Eles vivem ao longo de cinco leitos de rio do deserto e migram por longas distâncias, em busca de água e comida. Os animais se alimentam das vagens de árvores da espécie Faidherbia albida ou da grama das várzeas.
Eles não formam uma espécie separada, mas sim um ecotipo: uma população de elefantes que se adaptou ao ambiente árido aprendendo comportamentos, não com adaptações genéticas. É um fenômeno similar ao dos leões do deserto da Namíbia, que moram na Costa dos Esqueletos.
“É o seu conhecimento que realmente os torna especiais e também muito vulneráveis porque, se aquele conhecimento desaparecer, não poderá ser substituído rapidamente”, explica Winter.
Espécie em declínio
A população dos elefantes vem diminuindo progressivamente ao longo dos últimos 20 anos, segundo Winter.
Esta redução se deve, em parte, ao estresse ambiental, particularmente aos longos períodos de seca. Mas também ocorre devido ao aumento dos conflitos com seres humanos, afirma ela.
“Os conflitos ocorrem principalmente em relação à água”, explica Winter. Os elefantes entram nas fazendas e derrubam tanques de água, puxam canos e quebram bombas.
“Por isso, a tolerância das pessoas à presença de elefantes não é muito alta. Estas histórias têm raízes profundas e persistem há muito tempo.”
A mortalidade dos filhotes recém-nascidos é uma preocupação importante, segundo Winter. “É extremamente alta e muito assustadora.”
Ela conta que, de um total de 16 filhotes, apenas dois sobreviveram entre 2014 e 2022.
Uma teoria para tentar explicar a morte de tantos filhotes de elefantes do deserto diz que eles nascem prematuros “porque as fêmeas não têm condições físicas de levar a gestação até o fim”, segundo Winter. Para ela, este fenômeno pode se dever ao estresse crônico gerado pelos conflitos com seres humanos.
Pesquisas indicam que os elefantes podem sofrer transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), devido a esses conflitos.
Winter destaca que os filhotes natimortos encontrados pela equipe da EHRA são sempre muito pequenos.
Tipicamente, um filhote recém-nascido saudável pesa entre 100 e 120 kg, segundo ela. Mas os filhotes natimortos têm cerca de 60 a 65 kg.
A EHRA está trabalhando com a especialista em elefantes Daniella Chusyd, professora da Universidade de Indiana em Bloomington, nos Estados Unidos. O objetivo é analisar como fatores ambientais e o estresse crônico podem prejudicar os elefantes do deserto da Namíbia.
Atualmente, a ONG coleta amostras de fezes para exame. Eles determinam o teor de metais pesados, produtos químicos eternos (como as substâncias per e polifluoroalquila – PFAS, na sigla em inglês) e verificam os hormônios da tireoide e cortisol dos elefantes. Este projeto será conduzido até 2028.
“Também queremos [determinar] o grau de consanguinidade desta população, em comparação com outras, e se os filhotes sobreviventes possuem pedigree parental diferente dos que morreram”, explica Chusyd.
“Ela não o carregou, mas tentou levantá-lo, ficou de pé e o defendeu por dois dias”, conta Poole.
Poole espera que as fotos façam as pessoas perceberem “que os elefantes são capazes de sofrer e enfrentar luto”.
Aparentemente, os elefantes vivenciam luto quando um companheiro morre. Eles já foram observados visitando os restos de familiares e estranhos, tocando seus ossos e permanecendo ao lado dos restos por longos períodos, como forma de vigília.
“Os elefantes do deserto estão sendo levados à beira da extinção, não apenas pelas mudanças climáticas, mas pelas licenças de caça esportiva concedidas pelo governo da Namíbia”, explica Poole. “Precisamos fazer mais para evitar o trauma dos animais.”
Para Veronesi, a interação entre a elefanta e o recém-nascido foi “um comportamento quase humano”.
“É por isso que achei que seria incrível testemunhar aquele momento”, ele conta.
“Minha mensagem é que cada elefante, individualmente, é uma criatura que merece compreensão e conservação. Não precisamos conservar apenas a espécie, mas o bem-estar de cada indivíduo.”
O fotógrafo espera que suas imagens “abram uma pequena janela para a alma do elefante e a profundidade dos seus sentimentos”.
O concurso Fotógrafo da Vida Selvagem do Ano é elaborado e produzido pelo Museu de História Natural de Londres. A exposição fica aberta até julho de 2027.





