Fiador alimentar do mundo, Brasil enfrenta dependência de insumos
De acordo com a análise do Itaú BBA, o comportamento das tradings estatais chinesas reflete uma busca por segurança estratégica em momentos de entressafra na América do Sul, e não perda de competitividade da produção nacional. “A China aprendeu, nos últimos anos, que depender de uma única origem é caro e esse custo aparece justamente quando o mercado aperta. Ela mantém as duas janelas abertas: compra do Brasil quando a nossa safra está fluindo e volta aos EUA na entressafra sul-americana, que é exatamente o momento em que estamos vivendo agora.”
A consultoria reforça que boa parte das compras nos EUA tem sido feita por empresas estatais, no contexto do acordo comercial, e não pelas esmagadoras privadas, que seguem penalizadas pela tarifa adicional de 10% sobre produtos americanos. “Isso mostra que, onde a decisão é puramente econômica, a China continua preferindo a origem mais barata.”
O analista de commodities da Agrinvest Commodities, Samuel Mertens, acrescenta que os volumes adicionais direcionados ao mercado norte-americano têm viés de compromisso institucionalizado. “Esse acordo tem um objetivo muito mais geopolítico e comercial do que puramente estratégico para a soja, pois a China vem, nos últimos 10 anos, reduzindo sua dependência da soja americana.”
Dupla exposição dos custos
Se a ponta das exportações mostra vigor, a estrutura de custos no campo segue vulnerável à variação de insumos importados. O Brasil consome cerca de 8% da produção mundial de fertilizantes e importa aproximadamente 85% dessa demanda, o que transfere para as lavouras de soja e milho os efeitos das oscilações das cotações internacionais e das moedas estrangeiras.
Segundo o Itaú BBA, essa dependência gera dupla exposição direta sobre a rentabilidade do produtor rural. “A exposição é alta, por dois canais ao mesmo tempo: o preço internacional do insumo e o câmbio. Quando o dólar sobe, o adubo encarece em reais, mesmo que a cotação lá fora fique estável. É uma dupla exposição que o produtor não consegue neutralizar só com manejo. O melhor termômetro dessa exposição é a relação de troca. Em 2026, ela piorou de forma generalizada: na soja, a tonelada de MAP saiu de algo como 25 a 30 sacas em 2025 para 30 a 35 sacas; no milho, a mesma tonelada passou de 40 a 50 para 50 a 60 sacas. Isso significa perda direta de poder de compra do produtor”, dizem os analistas do Itaú BBA.





