Eva Baltasar e Susy Freitas encerram programação da Flip – 26/07/2026 – Ilustrada
A última mesa da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu, neste domingo (26), duas escritoras que fazem da literatura um exercício de desobediência social. Diante de uma tenda com poucas cadeiras vazias, a catalã Eva Baltasar e a amazonense Susy Freitas defenderam uma escrita que rejeita rótulos e prefere lançar o leitor em zonas de desconforto.
Mediada pela jornalista e roteirista Micheline Alves, a mesa discorreu sobre poesia, maternidade, desejo, identidade e liberdade criativa.
Baltasar já tinha livros de poesia publicados quando iniciou sua trilogia sobre mulheres em conflito com as convenções sociais composta pelos títulos “Permafrost”, “Boulder” e “Mamute”, todos lançados no Brasil pela Dublinense.
Já a manauara Freitas explora uma Manaus delirante, fragmentada e queer em história que acompanha os integrantes de um coletivo subversivo que faz intervenções em lugares marcantes da cidade com algum propósito de denúncia em “O Baile do Juízo Final” (Todavia).
As autoras falaram sobre como a poesia surgiu antes da prosa para as duas. “A poesia era uma forma de me conhecer, de viajar para dentro de mim mesma”, disse Baltasar.
Já Freitas afirmou que sua aproximação com a linguagem poética se deu pela via da sonoridade. Em Manaus, disse, a poesia sobrevive muitas vezes fora do mercado editorial, “no caderninho guardado na gaveta”, como um gesto cotidiano de criação.
Desejo e sexo, temas presentes nos dois livros, mas intensamente explorados pela trilogia de Baltasar, cujas três personagens são lésbicas, também entraram em debate. Questionada sobre sentir ou não pressão para exercer algum tipo de ativismo LGBTQIA+, disse: “Eu sou ativista da vida e da escrita”.
“Elas são lésbicas, mas esse não é o assunto central dos romances.” Para a escritora catalã, o desconforto das protagonistas diante do mundo importa mais do que qualquer identidade que lhes seja atribuída. “Eu não me declaro nada. Dou muita liberdade para sair dos rótulos. A política do romance depende principalmente do leitor, e não de mim.”
Freitas defendeu uma escrita guiada menos por debates identitários do que pela força da linguagem, do ritmo e da atmosfera. Disse que seu livro nasceu sem projeto definido, organizado pela intuição e pelos sonhos, e que sua estrutura fragmentária dialoga com uma Manaus feita de contrastes e deslocamentos. “Gosto da confusão, da inquietação. Me incomodam as ideias preconcebidas.”
Ao falar sobre sexo na literatura, a autora afirmou que o desejo resiste às tentativas de enquadramento. “O desejo transborda essas questões porque não racionaliza. O momento é caudaloso demais.” A liberdade de escrever, acrescentou, também passa por manter distância das disputas permanentes das redes sociais. “Eu me sinto livre por não acompanhar tanto essas discussões.”
A mesa encerrou a programação literária da Flip estreando um novo horário no último dia do evento, 15h30, e foi encerrada com um breve discurso do diretor artístico do evento, Mauro Munhoz. “A Flip não está garantida. Precisamos de vocês para continuar.”





