Escuta só essa
Outro dia, li aqui no UOL uma reportagem da Adriana Negreiros sobre audiolivros. Mesmo que restrito a um pequeno percentual do público leitor (e quem lê, infelizmente, também já é um pequeno percentual), cresce 22,6% ao ano. Eu, que restringia minhas leituras apenas aos olhos e olfato (poucos perfumes são tão bons quanto cheiro de livro), torcia o nariz para audiolivros. Mas, de uns tempos para cá, capitulei e abri os ouvidos para livros de não ficção e narrativas em inglês e espanhol.
Não deixo de considerar que esse interesse venha um pouco do fato de que gostamos de ouvir histórias. Mesmo que seja pela voz de um estranho narrando algo dentro de nossos ouvidos, pode ser que isso remeta à tradição oral que funcionou como fio condutor de nossas sociedades por séculos. Vale lembrar que a escrita como principal forma de registro e transmissão de conhecimento vem do século XV para cá, com o advento da prensa de Gutenberg – sim, existia escrita bem antes disso, mas era um tanto restrita em função das limitações para se fazer cópias. Por muito tempo, foi no gogó, na beira de uma fogueira ou em rodas de discussão, que nossos ancestrais transmitiam conhecimento, dividiam informações e contavam histórias para as crianças.
Aqueles que tiveram o privilégio de ter alguém lendo histórias ao pé da cama nos anos de formação têm nesses momentos algumas das melhores memórias da infância. Nos apegamos a elas, nos abrigamos no som das vozes que nos cercam, nas lembranças que despertam e nos vinculamos como povo à língua que aprendemos e que carinhosamente chamamos de “materna”.
O som é uma das primeiras formas pelas quais percebemos o mundo ao nosso redor. Mães conversam com seus bebês ainda antes de eles nascerem. Falam, cantam e a realidade que os espera do lado de fora se apresenta através daqueles sons e vibrações que serão seu elo antes de outros sentidos se formarem. É pela audição que começamos a aprender e talvez seja por onde tem início o despertar da nossa consciência.
Dia desses, minha esposa me contou a história de uma mulher que ela sempre encontrava na hora do almoço na praça de restaurantes do lugar onde trabalhava. Ela a conhecia de um outro trabalho e se cumprimentavam. A mulher sempre estava sozinha, mexendo em seu celular. Certo dia, se cruzaram e engataram uma conversa. Falaram do passado, contaram do presente, perguntaram sobre as famílias. Minha esposa lembrou que a mulher costumava comentar sobre a mãe, então lhe perguntou como ela ia. “A mãe se foi, Manu”, ela disse com os olhos já aguados. “E todos os dias, depois do almoço, eu sento em um banco aqui na praça e fico escutando os áudios das mensagens que ela me mandava só para poder ouvir um pouquinho da voz dela. A gente sempre se ligava nesse horário”.
Quando o que toca fora também nos toca dentro, o ruído se dissipa. Porque há sons que são capazes de aquietar todos os outros.





