Eleição de 2026 será o ‘Ataque dos Clones’ de IA de Bolsonaro
Se Bolsonaro não pode se manifestar politicamente nas redes, o seu avatar pode?
Desde julho de 2025, o ex-presidente está proibido de usar redes sociais “direta ou indiretamente”, e o STF esclareceu na ocasião que a vedação alcança a utilização de “material pré-fabricado” destinado à divulgação por terceiros. Neste mês, a leitura por Flávio de uma carta do pai em transmissão ao vivo já foi considerada descumprimento das cautelares. Alexandre de Moraes suspendeu as visitas do filho por 90 dias e endureceu as restrições. A PGR, embora tenha defendido a manutenção da prisão domiciliar, reconheceu que a carta tinha finalidade político-eleitoral.
Se uma carta lida por terceiro é material pré-fabricado, o que dizer de um avatar? O Bolsonaro sintético é o material pré-fabricado levado à sua forma final: um que nem sequer precisa do original para produzir conteúdo novo. A carta ao menos exigia que Bolsonaro escrevesse. O avatar dispensa até isso.
PT, PV e PCdoB acionaram o TSE no domingo, alegando uso indevido de IA e propaganda antecipada, e o deputado Lindbergh Farias levou o caso à PGR sustentando que a ressalva na abertura do vídeo não descaracteriza a violação das restrições impostas pelo Supremo. No final das contas a rotulagem resolve o problema do engano, não o problema da interposta pessoa – ou, no caso, da interposta persona.
Há aqui uma novidade que merece registro. O deepfake entrou no vocabulário público como instrumento de ataque: a imagem manipulada sem consentimento para prejudicar o retratado. A regulação eleitoral brasileira foi desenhada com esse fantasma em mente, tanto que a resolução veda o uso de conteúdo sintético para prejudicar ou favorecer candidatura quando coloca na boca de alguém o que essa pessoa nunca disse. Na Índia, há anos, candidatos usam deepfakes de si mesmos para aparecer falando idiomas que não dominam. É um deepfake consentido, quase de estimação. O vídeo do Pacaembu inaugura essa modalidade no Brasil em grande estilo: a simulação não contra a pessoa, mas em nome dela. Prepare-se para ver políticos fazendo discursos que nunca fizeram, com ou sem a bênção deles próprios.
E é aqui que o caso deixa de ser sobre Bolsonaro e passa a ser sobre a eleição. Boa parte da discussão jurídica vai orbitar as perguntas de sempre: ele sabia do vídeo? Autorizou a veiculação? Essas perguntas fazem sentido quando o vídeo é exibido na convenção do partido ou publicado pelas contas oficiais da campanha. Mas a campanha real não vai acontecer aí. Ela vai acontecer nos perfis de aliados, de influenciadores, de militantes e de anônimos, que vão encher as redes de Bolsonaros sintéticos pedindo votos para o filho. Nesses casos a pergunta “ele sabia?” perde o sentido. Não se controla um exército de clones interrogando o original sobre cada um deles.
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