El Niño ameaça produção de soja, milho, café e laranja, diz FGV
Se confirmada a ocorrência de um El Niño muito forte neste ano, as culturas que tendem a ser mais afetadas no Brasil, com potencial de queda de produção de 7% a 10%, são as de soja, milho, café e laranja. Os dados são estimados por especialistas da FGV (Fundação Getulio Vargas), com base em eventos semelhantes do passado recente, e foram apresentados durante mesa-redonda promovida pelo iCS (Instituto Clima e Sociedade) na manhã de hoje. “É importante dizer que ainda estamos na fase de observação e só no fim de julho é que poderemos dizer se haverá um El Niño muito forte. Por enquanto o El Niño é forte”, diz Eduardo Assad, professor do doutorado da FGV e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente. Ele acrescenta que o El Niño “muito forte” adiciona dois graus ou mais à temperatura média e o “forte” entre um e 1,5 grau. Quanto aos impactos, tendem a ser intensificados a partir de setembro, com dissipação entre janeiro e fevereiro. Além do calor, o El Niño modifica o padrão de chuvas, provocando uma distribuição irregular das precipitações. Assad ressalta ainda não haver evidências científicas que associem a crise climática à ocorrência de fenômenos climáticos, como o El Niño, mais fortes, mas aponta que chama a atenção o aumento da frequência da ocorrência desses eventos nos últimos anos. Para o professor, está provado que ações para a redução dos gases de efeito estufa diminuem os efeitos do El Niño e cita Mato Grosso como um estado onde a atuação nesse sentido deveria se intensificar. “Não podemos continuar desmatando em Mato Grosso. As ondas de calor lá são fortes, já levam à morte do gado e isso se controla com plantio de árvore”, afirma. O especialista cita que cerca de 2% dos recursos do Plano Safra são direcionados a plantios que visem à captação de gases de efeito estufa. Para o também professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura Guilherme Bastos, está faltando uma maior participação dos estados e dos municípios no mapeamento de riscos e elaboração de planos de contingenciamento para seca e enchentes. Segundo ele, os grandes produtores do país estão bem preparados para enfrentar os efeitos do El Niño, mas avalia que há uma maior vulnerabilidade dos pequenos e médios. “É aí que os estados deveriam entrar com seguro, complementando o suporte para quem não tem acesso ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) nem ao seguro privado”, diz Bastos, defendendo a adoção de seguros paramétricos – apólice que paga uma indenização predefinida quando um evento específico, como chuva abaixo ou acima de determinado nível, ocorre. Os dados compilados pela FGV com base em informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que, em 2020, 72% dos municípios brasileiros não possuíam plano para prevenção de enchentes em seu plano diretor. Na prevenção à seca, o número é maior, de 78% dos municípios sem um plano de contingenciamento.





