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E se uma máquina não roubar seu emprego?


Os próprios líderes de empresas à frente desses produtos têm dado declarações controversas a respeito. Se no começo pintavam um apocalipse ocupacional, agora dizem que não será bem assim. Mas há, de fato, trabalho sendo cortado e há trabalho sendo substituído. Já existem profissionais reclamando que em vez de usarem ferramentas de IA, sentem-se usados por elas. À medida que passam o dia calibrando o resultado do que esses modelos produzem, o ofício consiste em revisar o que os robôs fazem. Há ainda pessoas cujos chefes viraram robôs (pensando bem, lá no banco tinha um? não, esquece).

Porque tem um tanto disso mesmo. A princípio, acho que a parte do trabalho humano que uma inteligência artificial vai fazer é aquele do tipo que ninguém gostaria de estar fazendo de verdade. No fundo, só aceitávamos esse tipo de função porque era o que tinha à mão para ganhar algum dinheiro, bancar a vida e acumular experiência para algum dia, talvez, conseguir deixar de fazer aquele trabalho.

Relutamos em admitir que ocupações medíocres poderiam ser feitos por robôs porque são atividades mecânicas ou automatizáveis. Resistimos também porque parte dessas ocupações estão ligadas a cargos e aprendizados que levaram um tempão para serem assimilados. E porque uma coisa foi difícil de aprender, a gente tende a acreditar que ela é importante. Até pode ser, mas só até que uma ferramenta faça isso melhor. Pergunte para um egípcio empenhado na construção das pirâmides se ele dispensaria a ajuda de um guindaste, ou a um ex-office boy sobre a revolução do correio eletrônico sobre as páginas de fax.

Se as previsões se confirmarem, os primeiros empregos que a inteligência artificial deve substituir são os de colarinho branco, as funções burocráticas e corporativas, em geral exercidas por jovens recém formados em áreas administrativas, como finanças, advocacia, tecnologia, marketing e serviços de apoio ao escritório. E no futuro, uma fatia importante da hierarquia corporativa estaria sob risco à medida que sucessores deixam de ser formados nos cargos de base.

Com a migração ocupacional para atividades menos ameaçadas, teríamos em dez ou vinte anos uma geração especializada em profissões muito diferentes das que levaram ao desenvolvimento das ferramentas que as empurraram para suas novas carreiras. É paradoxal imaginar que professores, carpinteiros, enfermeiros, eletricistas, cuidadores, jardineiros, fisioterapeutas, artistas, bombeiros, psiquiatras, atletas seriam, então, as profissões predominantemente humanas, preenchendo lacunas de liderança social, em um ambiente desenhado por outro tipo de funcionamento.

Em resumo, é a derrocada do que o antropólogo David Graeber chamou de bullshit jobs no livro que leva o nome do termo que cunhou. Cá entre nós, se isso tudo ajudasse a inverter a cadeia de valores pela qual se dá nossa mecânica econômica, não seria de todo ruim. Mas me parece pouco provável que burocratas bem remunerados promovam qualquer tipo de progresso que coloque na reta justamente os seus cofrinhos.





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