Corpos dissidentes ocupam claustro medieval de Avignon em obra radical de Rébecca Chaillon
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Durante a peça, esse humor aparece como ferramenta de sobrevivência. Não se trata, no entanto, de um humor conciliador, mas que rasga e desloca, e que permite respirar num tempo saturado. A peça alterna momentos de riso e momentos de raiva, compondo uma parábola que tenta reorganizar o sensível diante do avanço do fascismo. A diretora não oferece um programa para ser seguido, apesar da ironia com o figurino, que às vezes se parece com uniformes de uma seita dissidente qualquer. A comunidade em cena ? híbrida, indisciplinada, insurgente ? tenta inventar estratégias de resistência que não dependem de instituições, mas de alianças afetivas e imaginárias.
A presença da astrologia opera como uma ferramenta de projeção num mundo em colapso. Quando o céu está saturado, quando a ciência é capturada por interesses econômicos e militares, ou quando o futuro é sequestrado por políticas reacionárias, a astrologia aparece como gesto de imaginação radical. A sugestão que Chaillon desenha parece ser a de uma reorganização simbólica, uma forma de reivindicar o direito de projetar futuro quando o presente tenta impedir qualquer autoria sobre o desejo.
A peça, ao articular astronomia, astrologia, ficção científica e política do corpo, constrói uma mitologia queer que atravessa territórios periféricos tão conhecidos dos parisienses, como Seine?Saint?Denis, Aubervilliers, Pré-Saint-Gervais, Montreuil, entre outros, e alcança o firmamento. É uma mitologia que não busca universalidade, mas especificidade: corpos que foram historicamente empurrados para fora do centro reivindicam o direito de ocupar o céu.
Dramaturgia das estrelas
A dramaturgia se organiza como uma fábula astral que transforma o céu em campo de disputa. Não é um céu metafórico, mas um território carregado de catástrofes climáticas, vigilância tecnológica, colonização espacial e desigualdades que se aprofundam sempre nos mesmos corpos. Ao cruzar astronomia e astrologia, Chaillon produz um deslocamento que interessa diretamente à crítica: entre cálculo e crença, o céu deixa de ser promessa e passa a ser diagnóstico. A peça parte da ideia de que o firmamento, antes associado à transcendência, se tornou um espaço saturado ? fragmentado por satélites, drones, sinais, tempestades ? e que essa saturação revela, com precisão, as fraturas sociais que estruturam o presente.
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