Como o críquete pode ser porta de entrada do COI à Índia – 27/07/2026 – Esporte
Quando o críquete retornar às Olimpíadas em Los Angeles, em 2028, trará muito mais do que tacos, bolas e wickets. Sua inclusão reflete um cálculo estratégico dos líderes olímpicos de que o caminho mais seguro para bilhões de novos espectadores passa pela Índia, o coração comercial do críquete e um país que eles acreditam ser cada vez mais central para o futuro dos Jogos.
O críquete, ausente das Olimpíadas desde 1900, oferece ao COI (Comitê Olímpico Internacional) algo que nenhuma adição recente proporcionou: acesso direto a uma base de fãs de mais de 2 bilhões de pessoas e, crucialmente, o poder comercial do mercado indiano. À medida que os Jogos buscam um público mais jovem e amplo, pode se provar o esporte mais valioso adicionado ao programa olímpico em décadas.
O críquete tem sido um dos principais esportes globais a não figurar nas Olimpíadas, disse o diretor de esportes do COI, Pierre Ducrey.
“É muito forte em mercados onde talvez se possa dizer que os Jogos Olímpicos hoje não penetraram tanto quanto em outros mercados”, afirmou.
“O críquete trará aos Jogos de LA públicos que talvez não sintonizem regularmente para assistir aos Jogos Olímpicos”, acrescentou Ducrey. “É uma situação em que todos ganham: ofereceremos a eles mais oportunidades e eles certamente fortalecerão nosso apelo em mercados que têm um interesse muito forte no críquete —e, às vezes, quase exclusivamente no críquete.”
Interesse nos direitos de transmissão
O iminente retorno do esporte às Olimpíadas já gerou demanda, com o COI confirmando “forte interesse” em direitos de transmissão para o subcontinente indiano para os Jogos de 2028.
Isso representaria “um múltiplo” do valor do contrato dos Jogos de 2024, disse Anne-Sophie Voumard, diretora executiva de serviços de televisão e marketing do COI, à mídia indiana no final do ano passado. O contrato de Paris 2024 foi estimado em cerca de US$ 30 milhões (R$ 152 milhões).
“Em relação aos direitos de mídia para os Jogos Olímpicos de LA28 no subcontinente indiano, estamos atualmente engajados em discussões construtivas com vários players importantes em toda a região”, disse um porta-voz do COI.
“Podemos confirmar que houve forte interesse do mercado, refletindo tanto o impulso por trás dos Jogos Olímpicos de LA28 quanto a adição do críquete ao programa esportivo.”
Já existem laços estreitos entre os Jogos Olímpicos e o críquete no mercado de mídia da região. A emissora indiana JioStar, do bilionário Mukesh Ambani —formada em 2024 a partir da fusão dos ativos de mídia na Índia da Reliance Industries e da Walt Disney—, detinha os direitos dos Jogos de Paris 2024 e dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina 2026, além de possuir os direitos de transmissão da Indian Premier League, a principal liga de críquete do país.
A esposa de Ambani, Nita, é membro do COI e sediou a sessão do COI de 2023, em Mumbai.
Ascensão do T20
O críquete voltou à conversa olímpica depois que o COI reconheceu o Conselho Internacional de Críquete em 2010, mas os tradicionais Test matches de cinco dias e as partidas internacionais de um dia com oito horas de duração permaneciam impraticáveis para os Jogos. O avanço veio com a ascensão explosiva do Twenty20, um formato de três horas cuja popularidade coincidiu com as reformas do COI em 2014 que permitiram às cidades-sede propor esportes adicionais, abrindo caminho para Los Angeles trazer o críquete de volta em 2028.
Além de sua curta duração, a alta volatilidade e o alcance internacional do T20 o tornaram ideal para as Olimpíadas, afirmou Sanjog Gupta, executivo-chefe do ICC e ex-CEO da área de esportes e experiências ao vivo da JioStar.
“O suspense ou a imprevisibilidade, elementos que beneficiam os esportes ao vivo, são maximizados neste formato”, disse Gupta. Ao contrário das partidas de Test matches, restritas aos 12 membros plenos do ICC, o T20 pode reivindicar o título de verdadeiro formato global do críquete.
“As oportunidades de participação foram significativamente ampliadas para realmente posicionar este formato como o aperto de mão do críquete com o mundo”, disse Gupta. “É global, mais acessível e representativo. O T20 preenche todos os requisitos.”
Longo processo
LA28 marcará o fim de uma jornada de 21 anos que começou com o reconhecimento provisório do críquete pelo COI em 2007.
“Os interesses de algumas das federações, os interesses do movimento olímpico em geral, às vezes convergem, às vezes não”, disse Ducrey. “E levou algum tempo para que os interesses do Conselho Internacional de Críquete, do esporte críquete em geral, e os do movimento olímpico se alinhassem de forma mais significativa, o que levou às discussões sobre o programa de 2028.”
“Então, uma longa jornada, mas eu diria uma que consistentemente aproximou nossos movimentos, nossos esportes e nossos interesses cada vez mais.”
A ascensão comercial do críquete foi impulsionada pela Indian Premier League, que transformou o esporte nas últimas duas décadas, atraindo os principais jogadores do mundo e se tornando uma das competições esportivas mais valiosas globalmente. A IPL de 10 equipes agora é avaliada em cerca de US$ 20 bilhões (R$ 101 bilhões), com a temporada de 2026 atraindo 1,2 bilhão de espectadores em todas as plataformas.
Futuro olímpico
Espera-se que o críquete permaneça nos Jogos além de 2028. Os Jogos de 2032 serão realizados em Brisbane, Austrália —outro país com forte tradição no críquete— e a Índia está pressionando fortemente para que Ahmedabad sedie os Jogos em 2036.
Além da expansão geográfica, o críquete oferece um perfil demográfico altamente cobiçado.
Segundo o CEO do ICC, Gupta, quase 50% dos seguidores têm menos de 35 anos e 35% têm menos de 27, tornando o críquete “preparado para o futuro”.
Ao incluir o críquete, o movimento olímpico está prestes a colher um significativo “dividendo demográfico”, disse Gupta. “À medida que o movimento olímpico olha para o futuro de sua própria importância e relevância do esporte em vários mercados, o críquete pode potencialmente desempenhar um papel enorme em impulsionar isso”, afirmou.
“O críquete é o esporte coletivo de grande escala que mais cresce no mundo. É uma oportunidade enorme para o movimento olímpico aproveitar essa onda.”





