Cidade escocesa busca migrantes frente queda da população - 29/08/2026 - Mundo - FlaNotícias

Cidade escocesa busca migrantes frente queda da população – 29/08/2026 – Mundo


No mês de maio, uma nova loja abriu as portas na decadente rua principal da cidade escocesa de Greenock. Anik African Store trouxe um pedacinho da Nigéria para o litoral da Escócia, vendendo inhame, bananas, bagres e quiabo.

Esta não é a única loja de comida africana da cidade. Existe outra a poucos metros de distância, o que evidencia as mudanças demográficas da região.

Moradores locais indicam que, cinco anos atrás, era difícil encontrar uma pessoa negra em Greenock. Agora, centenas de imigrantes africanos e refugiados se mudaram para a cidade.

A prefeitura local criou um programa para atrair ainda mais pessoas para esta região do oeste da Escócia, como forma de reduzir a queda da sua população. Os escoceses “são encantadores e hospitaleiros”, segundo Christianah Omilana, proprietária da Anik. Ela chegou ao Reino Unido em 2021.

‘Os imigrantes virão quando houver trabalho’

Mas a falta de trabalho tem sido um fator fundamental para a queda da população de Greenock e de toda a região de Inverclyde, onde fica a cidade. Esta é a parte da Escócia mais afetada pela redução demográfica. Inverclyde tem hoje 22 mil habitantes a menos que em 1981. A previsão é que sua população atual, de 78 mil moradores, seja reduzida em mais 16% nas próximas duas décadas.

A principal prioridade do governo local é resolver o problema da falta de população, fazendo com que mais moradores permaneçam na região e atraindo novos habitantes.

Greenock é uma cidade encantadora e acolhedora, segundo Sunday, um dos clientes da Anik. Ele acaba de se mudar de Devon, na Inglaterra. Sunday começou a trabalhar em um hospital de Glasgow, a maior cidade da Escócia. Ele veio para Greenock para se reunir com a esposa, que trabalha no hospital local Inverclyde Royal.

“Se a prefeitura local conseguir fornecer postos de trabalho, tudo irá mudar em Greenock, pois as pessoas da África gostariam de vir para cá”, destaca Sunday.

‘Sugarópolis’

A maior parte dos imigrantes africanos que moram em Greenock trabalha ou estuda em Glasgow ou Paisley, outra cidade próxima. Eles foram atraídos porque o custo de moradia é acessível. Muitos chegaram com vistos de trabalho qualificado. Eles contribuem para reforçar o quadro de funcionários do setor médico e assistencial.

A estratégia de aumento da população do governo local de Inverclyde é baseada em tentar incentivá-los a se estabelecer aqui, além de atrair para a região outros imigrantes em situação regular e pessoas que receberam status de refugiados.

Mas a falta de empregos é a principal causa dos problemas de Greenock. “É uma cidade-fantasma”, segundo Tiffany, mãe de um filho pequeno. A reportagem da BBC a encontrou em um grupo local de pais e bebês. “Não existe absolutamente nada. Não há nada para fazer, não há lojas. Não há trabalho.”

Tiffany tem 29 anos e se mudou de Greenock para trabalhar, mas acabou voltando para criar seu filho. Agora, ela diz que enfrenta a possibilidade de se mudar novamente. “É difícil encontrar empregos que se adaptem ao cuidado com meus filhos e à minha vida pessoal”, lamenta. “Venho considerando me mudar daqui para Paisley porque lá existe muito mais para se fazer.”

Se você pesquisar a história industrial de Greenock, irá encontrar um legado singular. No século 19, a cidade era um centro mundial de refino de açúcar, o que lhe valeu o apelido de “Sugarópolis” —termo que junta as palavras “sugar”, açúcar em inglês, e “polis”, em referência à “cidade”. E milhares de navios foram construídos nesta cidade litorânea ao longo de quase 300 anos.

Mais recentemente, a fabricante de computadores IBM empregava mais de 5.000 pessoas nas suas instalações perto de Greenock, que foram fechadas em 2016. Nos últimos quatro anos, outros 1.500 postos de trabalho foram perdidos. Empresas como a Amazon, a operadora de celulares EE e outras deixaram a região.

Ainda neste mês de agosto, o estaleiro local anunciou a redução de cerca de 25% do seu quadro de funcionários. Paralelamente, os torcedores do clube de futebol local, o Greenock Morton, criaram um fundo de ajuda para tentar evitar a falência. A equipe disputa a segunda divisão escocesa.

A cidade enfrenta dificuldades. Não é por acaso que o primeiro-ministro da Escócia, John Swinney, tenha visitado a região este mês, para conhecer os problemas in loco.

Muitos imigrantes africanos trabalham no setor de saúde e assistência social, mas pode ser difícil encontrar oportunidades de trabalho para os nascidos na região e os refugiados. “Quando o trabalho desaparece, somem as pessoas”, segundo Muriel, uma das dezenas de moradores idosos que se reúnem no Lyle Gateway Community Café, perto da rua principal da cidade.

Entre partidas de pingue-pongue e almoços fartos e baratos, o grupo recorda uma cidade vibrante, repleta de pessoas e lojas para visitar. Agora, reina o desânimo. Palavras como “vazio” e “deprimente” marcam as conversas.

Os aposentados também são céticos em relação à estratégia de repovoamento do governo local. Eles são favoráveis à vinda dos imigrantes, mas se perguntam até que ponto este fluxo seria sustentável. A cidade precisa de centenas de imigrantes novos todos os anos, apenas para manter a população estável.

“Onde eles irão trabalhar?”, pergunta Pamela. “Os moradores e Greenock não conseguem trabalho, que dirá trazendo mais pessoas.”

Mais funerais que batizados

A cafeteria fica na igreja Lyle Kirk, onde Jonathan Fleming é o pastor da Igreja da Escócia há cinco anos. Ele é uma testemunha pessoal da queda de população da cidade. Sua igreja realiza “muito mais funerais do que casamentos e batizados”, segundo ele. “E esta mudança é muito mais drástica do que no passado.”

A igreja vem ajudando recentemente alguns refugiados iranianos, o que é uma experiência preocupante, afirma Fleming. Eles estão desesperados em busca de trabalho remunerado, mas não conseguem encontrar.

“Eles querem contribuir para a comunidade”, explica ele. “Querem ser independentes, sem depender de ajuda financeira, mas não conseguem. De certa forma, estão encurralados.”

O número de pessoas que chegam a Inverclyde vindas do exterior triplicou nos últimos tempos, atingindo 750 imigrantes por ano desde 2023. Centenas de imigrantes africanos se estabeleceram na região, além de refugiados da Ucrânia, Afeganistão e de outros países. Muitos deles têm histórias positivas para contar.

Como parte do plano de aumento da população, o governo local oferece aulas de inglês para quem necessitar e ajuda para que eles tenham acesso a empregos qualificados. E também auxilia as escolas para que ofereçam educação inclusiva e antirracista.

Mo Almalarashid chegou a Greenock em 2018 como refugiado sírio, sem falar uma palavra de inglês. Ele conta que encontrou uma comunidade que o apoiou e, depois de estudar muito, trabalha agora como instrutor em uma academia local. “Sempre houve gente disposta a me ajudar”, afirma.

Mas também houve momentos de tensão. Um adolescente local foi condenado a dez anos de prisão no ano passado por planejar um assassinato em massa na mesquita local. Em junho deste ano, um protesto realizado em frente a um hotel local que hospedava solicitantes de asilo terminou com uma mulher sendo acusada de crime de ódio e três policiais feridos.

Mas, nas eleições para o Parlamento escocês, em maio passado, o partido Reform UK (que defende ativamente a redução da imigração em nível nacional), ficou em um distante terceiro lugar em Inverclyde, cerca de 8.500 votos atrás do candidato vencedor do Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês), mesmo apresentando seu líder na Escócia para a disputa naquela circunscrição.

Razões para ficar

Outras regiões do Reino Unido enfrentarão o mesmo desafio populacional de Inverclyde nos próximos anos. A previsão é que a população da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte comece a diminuir na próxima década.

Stephen McCabe lidera quase com exclusividade o conselho de Inverclyde, controlado pelo Partido Trabalhista desde 2007. Ele acredita que o plano de aumento da população começa a surtir efeito. A população local se estabilizou nos dois últimos anos, segundo ele, principalmente graças à imigração.

O repovoamento é a base de todos os planos da região de Inverclyde, segundo McCabe. Eles incluem projetos habitacionais, renovação de edifícios escolares e, talvez o mais importante, a criação de empregos.

Falando nas margens do rio Clyde, que banha a região, McCabe vislumbra oportunidades no setor marítimo, de energias renováveis e de defesa. Ele reimagina o uso do rio para o século 21. Mas, para isso, será necessário considerável apoio dos governos britânico e escocês.

A maioria dos solicitantes de asilo não pode trabalhar enquanto aguarda a decisão do Ministério do Interior britânico. Questionado a este respeito, McCabe reconhece que existem “certas preocupações, sem dúvida”.

O governo local participou “voluntariamente” de um programa de recolocação do Ministério do Interior, acolhendo mais de 200 pessoas que solicitavam asilo. McCabe acredita que a região “recebeu uma parcela desproporcional”, e comenta-se que uma empreiteira contratada pelo Ministério do Interior comprou diversas casas no local.

Mas os imigrantes e refugiados que podem trabalhar são bem-vindos a Inverclyde, segundo McCabe. “Sem estas pessoas, nosso sistema de saúde estaria em sérias dificuldades”, afirma ele. “Os refugiados que chegaram trouxeram benefícios para a região. Eles trarão ambição e crianças para cá.”

Além de estar diminuindo, a população de Greenock também está envelhecendo. A falta de crianças causou o fechamento de uma creche, e as pessoas idosas têm maiores necessidades de assistência médica.

Se somarmos a isso os altos níveis de pobreza na região, a pressão sobre os serviços públicos aumenta, em meio à queda da arrecadação de impostos. Com isso, os moradores que permanecem pagam mais. O imposto local aumentou este ano em quase 8%.

Mas não é preciso procurar muito longe para encontrar uma visão diferente de Greenock. A apenas 15 minutos de carro, fica o centro de Gourock, que já foi uma zona igualmente desfavorecida. Agora, ela conta com uma pequena e próspera rua principal com lojas independentes, impulsionada por um recente investimento local de 5 milhões de libras (quase US$ 7 milhões, cerca de R$ 36 milhões) e por moradores com maior poder aquisitivo.

Matthew Quinn, morador local de 19 anos e ex-membro do Parlamento Juvenil Escocês, afirma que Gourock assumiu seu futuro como “cidade-dormitório”. Ele acredita que outras regiões de Inverclyde deveriam seguir este exemplo.

Para ele, o enfoque do governo local na criação de empregos em larga escala está errado. Quinn destaca que muitas pessoas agora trabalham em casa e que a região deveria aproveitar sua proximidade de Glasgow, que fica a apenas cerca de 40 minutos de distância.

“Se aceitarmos que os empregos estão em Glasgow, deveríamos nos concentrar nos serviços públicos e garantir um ambiente agradável para as pessoas viverem”, opina ele. “Acredito que, assim, teríamos muito mais sucesso. Não é que as pessoas estejam desesperadas para ir embora. A questão é que não há motivo para ficar.”

‘Existe potencial’

Alguns moradores de Greenock estão tentando atingir este objetivo. O otimismo de Derek Mitchell chega a ser contagioso. Ele pretende transformar uma antiga refinaria de açúcar, ao lado do estacionamento de um supermercado, em um centro dinâmico de ensino e motivação para os jovens.

Para ele, concentrando-se na ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática, será possível fornecer as capacidades necessárias para o futuro. “Se criarmos uma sensação de pertencimento, de forma natural e orgânica, as pessoas não irão querer ir embora”, segundo ele.

Mitchell comprou o edifício com um grupo que reúne outros moradores locais. Eles calculam que será necessário um investimento de 5 milhões de libras e continuam procurando parcerias para a empreitada. “Muitas pessoas estão começando a construir por si próprias. Elas observam que existe potencial e estão cansadas de esperar.”

Em um momento em que grande parte do Reino Unido se preocupa com a imigração, a decisão de Inverclyde de acolher imigrantes e refugiados é inovadora. A queda da população é um problema grave e a solução encontrada pelo governo local é surpreendente. Outras comunidades logo enfrentarão um desafio similar de queda da população —e poderão seguir o exemplo sendo deixado por Greenock.



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