Busca por legado traz imprevisibilidade ao Lula 4, diz diretor da Eurasia
Os resultados das eleições brasileiras surpreenderam, especialmente diante do movimento à direita observado em outros países latino-americanos. A vitória de Lula muda a percepção sobre a região?
A tese de que a América Latina está caminhando para a direita ficou um pouco mais fraca. Metade da população da América do Sul está em países governados pela esquerda, e os dois principais países da América Latina, México e Brasil, são governados por governos de esquerda. Sempre olhei com ressalvas a ideia de uma virada ideológica definitiva. Estamos em um ambiente difícil de governar, no qual os governantes enfrentam níveis menores de aprovação popular e a direita tem aproveitado essa onda de insatisfação. O presidente Lula entrou na eleição com uma taxa de aprovação mais alta do que a de seus pares. Nenhum governante em exercício com uma aprovação de aproximadamente 45%, como a de Lula, havia perdido uma eleição de reeleição. Ele entrou, portanto, em condições mais favoráveis. Essa foi uma das razões pelas quais a disputa era tão difícil de prever. Lula tinha condições de vencer, mas as demandas dos eleitores por segurança e por respostas à estagnação apontavam para uma possível vitória da oposição. O resultado sugere que não existe uma força pré-determinada conduzindo a região para a direita. É importante lembrar que, na Colômbia e no Peru, a direita venceu por uma margem inferior a um ponto percentual.
Durante a campanha, quando Flávio Bolsonaro aparecia à frente, falava-se em maior alinhamento entre Brasil e Estados Unidos e em uma possível redução da importância da China. A vitória de Lula muda esse cenário?
Acredito que Trump será minimamente pragmático, porque existe um estoque importante de investimentos diretos americanos no Brasil. O Brasil também fornece terras raras para a economia americana, e a diplomacia dos Estados Unidos tem preocupação com a possibilidade de o país se aproximar demais da China. Por essas razões, acredito que o padrão da relação bilateral tende a continuar. Imagino que o presidente Lula fará um gesto para se encontrar com Trump e que o presidente americano tenderá a aceitar. Não estou otimista quanto à possibilidade de redução das tarifas comerciais. Também considero que a regulação das empresas de tecnologia americanas poderá ser um ponto importante de tensão. Essa questão pode gerar atritos entre os dois países. Portanto, a relação poderá enfrentar dificuldades, embora eu considere difícil que saia completamente dos trilhos.
Como o senhor analisa 2027 em termos de economia global e qual será a posição do Brasil nesse cenário?
Acredito que teremos um mundo com mais inflação, juros mais elevados e conflitos geopolíticos constantes e duradouros. Os países estão pensando em estratégias de segurança nacional para orientar suas políticas industriais e tentando reduzir a dependência dos Estados Unidos e da China. Ao mesmo tempo, potências médias estão firmando acordos entre si. Será um mundo com mais conflitos, no qual o Brasil poderá estar relativamente bem posicionado. Mas, se não fizermos a lição de casa, ficaremos à margem dessas transformações, tanto geopolíticas quanto tecnológicas. O fluxo de investimentos também poderá sofrer. A responsabilidade fiscal é sempre importante, mas será particularmente decisiva nesse ambiente global, porque o Brasil tem condições de navegar bem nesse novo cenário, desde que resolva seus problemas internos.





