Brasil apoia acordo Mercosul-China após tarifaço dos EUA – 29/07/2026 – Mundo
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Lula e Xi Jinping conversaram por mais de uma hora na noite de domingo (26) e concordaram em acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a China com “as flexibilidades necessárias”, segundo a nota do Planalto.
A mudança no tom deste tópico é surpreendente e difere radicalmente do adotado na última década, quando a diplomacia brasileira gastava capital político no bloco justamente para impedir que a negociação de um tratado saísse do papel.
Quem sustentava a pauta era o então presidente uruguaio Luis Lacalle Pou, que encomendou um estudo de viabilidade com os chineses em 2021 e repetia que o protecionismo do bloco sufocava a capacidade de um país pequeno se abrir ao mundo.
- Os números davam alguma razão ao uruguaio, já que o Mercosul exibe a menor razão entre comércio exterior e PIB entre os blocos de integração, 14,9% contra uma média global de 33%;
- Brasília e Buenos Aires trataram a iniciativa como ameaça à sobrevivência do bloco, apoiadas no Tratado de Assunção, que obriga os sócios a negociar em conjunto com terceiros. O receio era de triangulação, com produtos chineses levemente processados no Uruguai circulando pela região com as preferências reservadas aos membros.
Não por acaso, Lula escolheu Montevidéu como parada da primeira viagem internacional do terceiro mandato, em janeiro de 2023, e comprou a desistência uruguaia com a retomada de obras de infraestrutura e a volta das contribuições ao fundo do bloco.
Lacalle Pou levou a conversa com Pequim para dentro do Mercosul, onde ela vinha hibernando por três anos seguintes. O atual presidente Yamandú Orsi reabriu a porta em fevereiro, ao levar 150 pessoas a Pequim e assinar declaração conjunta pedindo o início imediato das tratativas. Bastaram cinco meses e duas rodadas de tarifas americanas para que o Brasil aderisse à agenda que havia sabotado.
Por que importa: a diversificação que Lula apresenta como resposta ao tarifaço cobra um preço industrial que o próprio governo passou anos tentando evitar, e as “flexibilidades necessárias” antecipam a briga por salvaguardas que aço, têxtil e automóveis vão travar na mesa. Enquanto isso, Pequim recebe de graça a demonstração de que a coerção americana empurra parceiros na direção oposta à pretendida por Washington.
pare para ver
Tela do artista chinês Fang Lijun, conhecido pelo uso vibrante de cores. Ele é um dos precursores do estilo “realismo cínico”, que se popularizou no país após as manifestações na Praça da Paz Celestial, em 1989. Fang tem obras espalhadas pelo mundo todo e já expôs no Museu de Arte de Macau e no prestigiado Centro Pompidou, em Paris. Saiba mais sobre ele aqui.
o que também importa
★ O governo Trump vai restringir uma série de tecnologias chinesas de entrarem nos EUA. A lista inclui robôs humanoides e quadrúpedes, inversores de energia conectados, equipamentos usados em redes elétricas e data centers. Conduzidas pela FCC (espécie de Anatel americana), as medidas buscam proteger a expansão da inteligência artificial americana contra riscos de espionagem, roubo de dados e sabotagem, além de estimular a produção doméstica. Líder mundial em robôs humanoides, a chinesa Unitree deve ser a principal atingida, assim como Sungrow e Huawei no setor de inversores. Segundo a Reuters, as regras devem valer apenas para modelos ainda não lançados no mercado americano.
★ A China vai endurecer a venda de equipamentos militares aposentados e vai vetar canais não autorizados. Segundo comunicado divulgado nesta terça por múltiplos órgãos estatais, empresas vinham vendendo abertamente, online e em lojas físicas, itens desativados das Forças Armadas, criando riscos de segurança. A norma cobre de uniformes a maquinário, componentes e munição retirados de serviço. O Ministério da Defesa disse em nota que já prevê até dez anos de prisão para quem vende ou transfere armamentos, mas a legislação atual é considerada vaga. O novo texto lista exemplos do que é proibido, citando sigilo militar e a imagem do Exército de Libertação Popular, além de vetar a montagem de equipamentos com peças desmontadas e a venda de imitações realistas.
★ Pequim negocia com os rebeldes houthis do Iêmen a passagem segura de petroleiros chineses pelo mar Vermelho, disse a imprensa americana. Aliada ao Irã, a milícia anunciou no dia 20 um bloqueio aos portos sauditas, abrindo nova frente contra os EUA na guerra com Teerã. A China precisa manter o fluxo de petróleo saudita a partir de terminais como Yanbu para compensar o fechamento do Estreito de Hormuz pelo Irã. Segundo a Reuters, as empresas chinesas têm liberado cada navio individualmente com os houthis. Pelo menos quatro petroleiros com destino ao país asiático já cruzaram o estreito de Bab el-Mandeb desde o anúncio, enquanto dois superpetroleiros mudaram de rota por temores de segurança.
fique de olho
Uma empresa estatal chinesa sediada em Xangai começou a fabricar máquinas de litografia DUV de imersão. São equipamentos gigantes que “imprimem” os circuitos dos chips sobre lâminas de silício e que até hoje eram monopólio da holandesa ASML, segundo reportagem do The Information publicada nesta segunda-feira (27).
As primeiras unidades devem ser entregues ainda este ano aos maiores fabricantes de chips do país, incluindo SMIC, Hua Hong e CXMT.
- O plano prevê cerca de cinco máquinas em 2026 e aproximadamente 20 em 2027, uma escala modesta perto dos 131 sistemas do tipo que a ASML entregou apenas no ano passado;
- As ações da ASML caíram mais de 8% nesta terça-feira (28) mesmo assim, apagando mais de 8 bilhões de euros em valor de mercado e arrastando as americanas Applied Materials, Lam Research e KLA, que também vendem equipamentos para a indústria de chips.
As máquinas DUV fabricam os chips presentes em carros, eletrodomésticos e na maioria dos eletrônicos do dia a dia.
Os processadores de ponta, como os desenhados por Apple e Nvidia, exigem uma tecnologia mais sofisticada chamada EUV, que usa um tipo de luz ainda mais fina para desenhar circuitos menores. Nesse terreno, a ASML segue sozinha no mundo, e a versão chinesa não passou do estágio de protótipo.
Por que importa: as máquinas DUV de imersão são o equipamento mais avançado que a China ainda consegue comprar sob os controles de exportação impostos por Washington e Haia, e a notícia sugere que Pequim avança mais rápido do que se previa rumo à autossuficiência.
Contudo, analistas apontam que anunciar uma máquina é uma coisa e usá-la em fábrica é outra, já que ninguém sabe se o equipamento chinês produz chips sem defeito em proporção competitiva, nem se funciona de forma confiável por milhares de ciclos. O teste real vem no chão de fábrica, e o resultado dirá se os controles de exportação atrasaram a China ou apenas aceleraram o desenvolvimento desta indústria crítica.
para ir a fundo
Estão abertas as inscrições para a 8ª Feira de Recrutamento de Empresas Chinesas no Brasil, que acontece na Faculdade ESEG no dia 8 de agosto. Organizada pela Associação Brasileira de Empresas Chinesas, pelo Instituto Confúcio na Unesp e pelo IEST Group, o evento reunirá 30 empresas chinesas e oferecerá mais de 400 vagas em diferentes níveis de atuação. Mais informações aqui.
De 3 a 25 de agosto, o Rio de Janeiro vai receber a 5ª Mostra de Cinema China-Brasil. O evento contará com 14 filmes, vários deles inéditos. A programação inclui ainda projeções em vários espaços da cidade, além de bate-papo com profissionais do mercado audiovisual chinês e atividades em escolas públicas nos bairros de Madureira, Xerém e Rocinha. Os ingressos são gratuitos e a lista completa dos horários pode ser vista aqui.





