Bolsonaro na pandemia: Mentiras de Nikolas é oportunidade – 08/08/2026 – Celso Rocha de Barros
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com “Nikolas Ferreira gravou um vídeo”, esse também termina com “era tudo mentira”.
Nada disso está nos diários de Fauci. Se você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.
Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.
Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes totais, sendo um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio governo Bolsonaro.
O “mínimo de 100 mil mortos” é baseado na estimativa do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.
Na verdade, o número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de “mortes em excesso” (“excess deaths”) ocorridas no Brasil durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal, dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras doenças (que permaneceu igual).
A estimativa do número de mortos por falta de vacina no primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou. Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas as ofertas de vacina que Jair recusou.
No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos são brasileiros.
O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão. Jair não apertou.
Fica pior.
Quando Jair começou a implementar sua política de “imunidade de rebanho” —deixar a população adquirir imunidade pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido descoberta. Se João Doria não tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?
Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe de 2022 quando Mauro Cid foi preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.
Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.
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