Bicampeão dá adeus e norte-americanos sonham com fim do jejum
Sem ver um campeão de Grand Slam desde que Andy Roddick surpreendeu com o título de 2003 no US Open, o tênis masculino norte-americano ganhou o direito de sonhar, e com grande chance, de enfim encerrar esse terrível jejum. Ben Shelton impediu o favorito Carlos Alcaraz de brigar pelo tri e segundo troféu consecutivo um jogo histórico e decidirá com Frances Tiafoe quem fará a primeira final de Slam da carreira.
Big Ben fez a melhor partida que já me lembro de tê-lo visto jogar, principalmente pela sua capacidade de manter as trocas de bola contra Alcaraz num ritmo pesadíssimo. Enquanto o duas vezes campeão perdeu intensidade e mostrou certa falta de pernas a partir do segundo set, Shelton manteve padrão de alto nível técnico e físico, lutando bravamente pelos pontos e colocando o adversário para correr. Mesmo tendo perdido facilmente o quarto set, voltou a jogar com firmeza na longa e tensa série decisiva, finalizando um match-tiebreak tenso e lutado ponto a ponto.
Claro que Shelton sacou maravilhas. Desde o primeiro game, abusou da força, marcou diversos primeiros serviços na casa dos 230 km/h e forçou o segundo saque – um marcou 195. Porém, além disso, devolveu com profundidade, manteve sempre uma postura ofensiva e perdeu raros pontos junto à rede. O primeiro set foi especialmente magnífico num jogo que terminou depois das 3 horas da madrugada – novo recorde do torneio – e recompensou o persistente público com dezenas de lances geniais dos dois lados. Shelton, que acaba de defender seu título no Masters canadense, chega a sua terceira semi de Slam e segunda em Nova York.
Tiafoe por sua vez obteve uma das vitórias mais memoráveis de sua carreira. O garoto Alex Michelsen sacou para o jogo ainda no terceiro set e teve depois vantagem de 3/0 na série decisiva. Entrou em jogo, é claro, a menor experiência em jogos tão grandes, refletidas nas duplas faltas quando tinha tudo nas mãos, mas o espírito de luta de Frances mereceu aplausos.
Enquanto o agora número 8 do ranking comemorava sua terceira presença nas semifinais do US Open, Michelsen chorou nos seus ombros, numa das cenas mais marcantes deste US Open. A partida teve um total de 40 break-points, dos quais cada um aproveitou oito.
Tiafoe deixou o top 30 pouco antes do Australian Open, fez final de Acapulco e quartas em Miami para se recolocar como 18º e era 26º quando ganhou Halle, seu quarto ATP da carreira mas o primeiro em três temporadas. O vice em CIncinnati para Arthur Fils foi sinal de que ele poderia ir longe novamente em Flushing Meadows.
O retrospecto entre os dois carismáticos homens da casa marca 3 a 1 para Shelton, embora cada um tenha vencido uma vez em duelos no US Open. O canhoto de 23 anos assume provisoriamente o quarto lugar do ranking, posição que só perderá caso Tiafoe seja campeão.
Sabalenka se agiganta na hora certa
O duelo de agressividade absoluta entre Aryna Sabalenka e Linda Noskova valeu o ingresso. Jogo intenso, cheio de alternâncias, sem sinal de quem sairia vencedora até o finalzinho do match-tiebreak. Cada uma disparou mais de 40 winners (46 a 42 para Noskova, que fez 18 a 12 em aces).
Na hora que precisou de toda sua confiança e arrojo, Sabalenka foi notável. Saiu de 2/4 no terceiro set e de 0-2 no supertie, tirou tudo que pode do saque, incluindo dois segundos serviços ousados, o último deles que virou ace no match-point. “Tive sorte”, foi sua modesta definição ao atingir a sexta semi consecutiva em Nova York.
Sabalenka não derrotava uma top 10 desde Coco Gauff em Miami e havia perdido os dois jogos de Slam que foram ao terceiro set. “Ela estava sacando melhor que eu na série decisiva, tive de pensar ponto a ponto”. E segue com chance de fechar a temporada com um troféu de Slam, o que tem feito seguidamente desde 2023, mesmo que o número 1 vá embora.
Vai cruzar pela 14ª vez com Jessica Pegula, a quem venceu nas duas últimas edições do torneio rumo ao título, a primeira na final e a do ano passado na semi. A norte-americana ganhou apenas quatro desses confrontos e certamente não poderá mostrar a mesma fragilidade desta noite diante de Emma Navarro, em que só jogou realmente com firmeza a partir da metade do terceiro set. Por vezes, o saque machucou muito pouco e isso é fatal diante da devolução forçada da bielorrussa.
Aryna e Jessica estarão de dedos cruzados para ver se Elena Rybakina não crava o número 1 nesta quarta-feira diante de Qinwen Zheng. Só nesse caso, a semi também valerá a chance de liderar o ranking caso uma das duas chegue ao título. Coco Gauff, que enfrenta Mirra Andreeva, também fica na torcida.
Luísa é a nova número 3 do ranking
Apesar do placar aparentemente tranquilo, Luísa Stefani e a parceira Gabriela Dabrowski tiveram de jogar muito para superar o dueto chinês formado por Xinyu Jiang e Shuai Zhang, o que garante a terceira semi em Flushing Meadows e o inédito terceiro lugar do ranking para a paulistana de 29 anos.
Em busca da segunda final seguida de Slam, as vices de Wimbledon enfrentam no final da tarde desta quarta-feira as norte-americanas Robin Montgomery e Ashlyn Krueger, que não jogavam lado a lado há três anos e enfrentaram o dueto de Stefani no WTA de San Jose de 2021.
Há enorme chance de a decisão do título ser diante das líderes do ranking, a norte-americana Taylor Townsend e a tcheca Katerina Siniakova, que vão enfrentar a belga Elise Mertens e a russa Diana Shnaider.





