O que a Selic em 13,75% significa para o crédito, o consumo e a inflação · Economia Real
A decisão do Banco Central (BC) de manter a Taxa Selic, juros básicos da economia, em 13,75% ao ano interrompe uma sequência de cinco cortes e mexe diretamente com o bolso dos brasileiros. Na prática, o crédito deixa de ficar mais barato, o consumo perde um estímulo e a prioridade da autoridade monetária volta a ser o controle dos preços.
Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) botou o pé no freio diante das tensões em torno do câmbio e do fenômeno climático El Niño. A decisão surpreendeu o mercado financeiro, que esperava um corte de 0,25 ponto percentual, embora parte das instituições apostasse na manutenção da taxa.
Em comunicado, o Copom informou que as incertezas se ampliaram nas últimas semanas e que as expectativas de inflação continuam acima da meta. O órgão não deu pistas sobre a trajetória dos juros nas próximas reuniões.
“O contexto atual, caracterizado por taxa Selic substancialmente contracionista, aumento significativo das incertezas em torno do cenário base, expectativas de inflação mais elevadas, e desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada, apresenta um cenário desafiador para a política monetária, demandando serenidade e cautela na sua condução”.
Comunicado do Banco Central
O Copom tomou a decisão desfalcado. O mandato dos diretores de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e de Política Econômica, Diego Guillen, expirou no fim de 2025, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não encaminhou as indicações dos substitutos ao Congresso Nacional.
Consumo e crescimento: economia em desaceleração
A Selic é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia, como as de empréstimos e financiamentos.
Quando o BC reduz os juros básicos, o crédito fica mais barato. Quando eleva, o crédito encarece, o que dificulta a tomada de financiamentos de carros e imóveis, por exemplo.
De junho de 2025 a março de 2026, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. Desde abril, o Copom cortou os juros cinco vezes, num cenário de queda da inflação. Com a pausa, a taxa permanece em 13,75%, patamar que o próprio BC classifica como “substancialmente contracionista”.
Juros mais baixos estimulam a produção e o consumo e impulsionam a economia. Por outro lado, taxas menores dificultam o controle da inflação. Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de subir.
A atividade já mostra perda de ritmo. No último Relatório de Política Monetária, divulgado no fim de setembro, o Banco Central reduziu para 1,8% a previsão de crescimento da economia em 2026.
O mercado projeta expansão um pouco menor: segundo a última edição do boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo BC, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,76% neste ano. Há quatro semanas, a estimativa estava em 1,85%.
Inflação: acima do teto da meta
A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em outubro, o IPCA-15, prévia do índice oficial, ficou em 0,32%, abaixo dos 0,70% de setembro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano, o indicador acumula alta de 4,15%. Em 12 meses, subiu de 4,47% para 4,62%, acima do teto da meta de inflação.
O alívio em outubro veio principalmente da conta de luz. A energia elétrica residencial passou de alta de 7,42% em setembro para queda de 0,89% em outubro, com a mudança da bandeira tarifária de amarela para verde. As passagens aéreas, com recuo de 9,24%, também ajudaram a segurar o índice.
Na direção oposta, os alimentos pressionaram. O grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,88% e teve o maior impacto do mês, puxado por tomate (24,54%), cebola (13,63%), batata-inglesa (10,96%) e arroz (5,80%). Os combustíveis também aceleraram, de 0,22% para 1,20%, com altas do óleo diesel (3,70%), do etanol (2,73%) e da gasolina (0,92%).
O IBGE divulgará o IPCA cheio de outubro no próximo dia 12.
Como funciona a meta
Pelo sistema de meta contínua, em vigor desde janeiro de 2025, a meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior, 4,5%.
Nesse modelo, a meta é apurada mês a mês, considerando a inflação acumulada em 12 meses. Em novembro de 2026, a inflação desde dezembro de 2025 é comparada com a meta e o intervalo de tolerância. Em dezembro de 2026, o procedimento se repete, com apuração a partir de janeiro de 2026. Dessa forma, a verificação se desloca ao longo do tempo e não fica mais restrita ao índice fechado de dezembro de cada ano.
Projeções e cenário externo
No último Relatório de Política Monetária, o BC manteve em 5,2% a previsão do IPCA em 2026, mas a estimativa será revista por causa da recente queda da inflação. A próxima edição do documento será divulgada no fim deste mês.
As previsões do mercado estão em linha com as da autoridade monetária. De acordo com o boletim Focus, a inflação oficial deverá fechar o ano em 5,22%, acima do teto da meta.
Antes do início da guerra no Oriente Médio, as estimativas do mercado estavam em 3,95%. O agravamento do conflito, o início do El Niño e a recente instabilidade cambial travam o desejo da redução dos juros.
*Com informações da Agência Brasil





