Soberania tem pressa
Não é caso isolado. A WEG lidera o mercado mundial de motores industriais de baixa tensão, e quase 60% de sua receita vem do exterior. A Petrobras aprendeu a extrair petróleo em águas profundas com o Cenpes, universidades e fornecedores. Nesses três casos, pesquisa, encomendas e disputa de mercado andaram juntas. A Coreia do Sul transformou essa combinação em política de Estado e investe 5% do PIB em pesquisa. O Brasil investe 1,2%.
Também conhecemos o caminho oposto. A Lei de Informática dá benefício fiscal a quem fabrica eletrônicos no país há 35 anos e custa R$ 7,7 bilhões por ano. Uma auditoria do TCU concluiu que ela exige produção local só nas “etapas menos nobres da cadeia de valor”, como montagem e soldagem. Onde o incentivo pagou montagem, ficou a montagem. Onde exigiu projeto e cliente, ficou capacidade. Soberania é isso: conseguir projetar, adaptar e continuar operando quando o fornecedor muda as condições.
O tsunami da IA e da robótica torna urgente escolher o caminho certo. O REDATA, regime de incentivos para data centers sancionado em setembro, é a prova de fogo. A lei exige que as empresas beneficiadas apliquem em pesquisa 2% do valor dos equipamentos comprados com o incentivo e ofereçam ao mercado brasileiro ao menos 10% de sua capacidade. Mas capacidade disponível não garante que uma equipe brasileira consiga usá-la e transformá-la em produto. Sem essa ponte, teremos a Lei de Informática dos data centers: o servidor liga aqui, e o produto continua sendo projetado lá fora. Parte dos benefícios termina em dezembro, e sua continuidade precisa entrar no debate eleitoral.
O apoio precisa de critérios públicos, metas e prazo, e quem descumprir deve perder o incentivo. A pergunta é concreta: uma equipe brasileira que quiser usar esses data centers terá computação a um preço que possa pagar, com quem aprender, um primeiro cliente e domínio sobre a tecnologia que criou? Se a resposta for não, compramos infraestrutura. Se for sim, começamos a próxima Embraer.
Lula sancionou o REDATA. Flávio Bolsonaro promete atrair data centers com menos regulação e mais abertura. Os dois devem ao eleitor a mesma resposta: que capacidade tecnológica o Brasil terá ao fim do mandato. Transformar soberania em xingamento de adversário custa anos que não temos.
Já aplaudimos quem compra bancos lá fora. Falta aplaudir, financiar e contratar quem constrói aqui. A próxima Embraer leva décadas. Por isso precisa começar hoje.
* Rodrigo Scotti constrói inteligência artificial no Brasil há doze anos. Fundou a Nama em 2014, uma das primeiras empresas brasileiras de IA conversacional, e foi listado no Forbes 30 Under 30 pelo impacto das aplicações que ajudou a criar. Hoje preside a ABRIA, que reúne empresas, universidades e pesquisadores do setor. Em julho de 2026, integrou a delegação brasileira à Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, na comitiva do Itamaraty, e falou no Fórum do BRICS sobre o Sul Global.





