Diarista de Apucarana supera dificuldades, se forma em Direito e é aprovada na OAB
Depois de concluir o ensino médio pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) em 2019, conquistar uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) em 2020, cursar Direito enquanto trabalhava como diarista e criar a filha, a trabalhadora doméstica de Apucarana (PR) Suellen Inacio de Oliveira Dias da Cruz, de 37 anos, alcançou mais uma conquista ao ser aprovada no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O resultado foi confirmado após a prova de repescagem, finalizando uma trajetória de cinco anos de estudos.
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Moradora do Residencial Jaçanã em Apucarana, Suellen concluiu o curso de Direito no último dia 7 de julho, na Universidade Norte do Paraná (Unopar) de Arapongas. “Eu sempre tive o sonho de fazer Direito, de ser advogada, mas venho de uma família humilde e não tinha condições. Até então, na minha família, só uma pessoa tinha o ensino médio completo. Eu também não tinha”, conta.
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A mudança começou em 2019. Incentivada pela filha, que hoje tem 15 anos e sonha em cursar Medicina, Suellen decidiu retomar os estudos.
“Conforme minha filha foi crescendo, ela começou a dizer que queria ser médica. Eu comecei a pensar: como ela vai conseguir realizar esse sonho se eu não tiver condições de ajudá-la a se manter em uma faculdade? Foi aí que resolvi mudar minha história.”

Suellen e os professores de sua bancada na apresentação de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – Foto: Arquivo Pessoal
Ela concluiu o ensino médio pelo Encceja em 2019. No ano seguinte fez o Enem e, quando saiu o resultado, conquistou uma bolsa de 100% pelo ProUni para o curso de Direito.
“Eu nem estudei para o Enem. Coloquei minha nota no ProUni e consegui de primeira uma bolsa integral. Na época havia apenas nove vagas para Direito na nossa região.”
Até então, Suellen havia estudado apenas até 2004, quando concluiu o ensino fundamental no Colégio Estadual Prof. Izidoro Luiz Cerávolo, em Apucarana. Ela se tornou a primeira pessoa da família a concluir os estudos superiores e hoje incentiva os parentes e amigos a seguirem o mesmo caminho.
“Tenho um primo que já está terminando o ensino médio e agora sonha em cursar engenharia. Também tenho incentivado minhas amigas a estudarem, inclusive me ofereço para fazer a matrícula. Tem que estudar”, salienta.
Suellen estudava e trabalhava ao mesmo tempo
Durante toda a graduação, Suellen conciliou a rotina de diarista limpando residências e estabelecimentos com as aulas, os estudos, os cuidados com a casa e a criação da filha.
“A maior dificuldade foi financeira e não ter o tempo que eu gostaria para estudar.”
Sem conseguir frequentar cursinhos preparatórios, ela transformou o próprio trabalho em sala de aula.
“Como o serviço era muito puxado, eu não tinha tempo de sentar para estudar. Então colocava os áudios das matérias no YouTube e ia ouvindo enquanto trabalhava. Foi assim durante a faculdade.”
A mesma estratégia foi utilizada na preparação para a OAB.
“Passei na OAB sem cursinho, estudando pelo YouTube. Eu pesquisava os temas que precisava estudar e ia aprendendo por lá.”
Na primeira tentativa, Suellen foi aprovada na prova objetiva, mas não conseguiu passar na segunda fase. Na prova de repescagem, alcançou a aprovação.
“Fiz a OAB, passei na primeira fase, reprovei na segunda. Agora fiz a repescagem e, graças a Deus, deu tudo certo.”
Apoio e incentivo durante a longa jornada
Ao longo da graduação, Suellen também realizou estágio no Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ) da Unopar, experiência que reforçou o desejo de atuar na área criminal.
“Quero trabalhar com Direito Penal. É uma área com a qual me identifiquei durante a faculdade.”
Ela também faz questão de destacar o apoio recebido das pessoas para quem trabalhou como diarista.

“Aqui foi onde tudo começou, eu ganhei esse computador da minha patroa, onde pude começar os estudos e atividades da faculdade”, lembra Suellen – Foto: Arquivo Pessoal
“Minhas patroas têm orgulho de mim. Elas sempre me incentivaram, sempre acreditaram que eu conseguiria.”
Segundo Suellen, esse incentivo foi importante para que ela mantivesse o foco mesmo diante das dificuldades.
Exemplo para a própria filha e também para outras pessoas
Hoje, ao olhar para trás, Suellen afirma que a maior recompensa é mostrar para a filha que é possível transformar a própria realidade por meio da educação.
Ela espera que sua história também incentive outras pessoas a retomarem os estudos.
“Se a minha história ajudar uma pessoa a sair do comodismo, já valeu a pena.”
A nova advogada diz que a conquista não representa para ela o fim de uma caminhada, mas sim o início de uma nova etapa profissional.
“Eu aprendi que nunca é tarde para começar. Às vezes a gente acha que o sonho ficou para trás, mas basta dar o primeiro passo. Foi isso que eu fiz”, finaliza.





