4 anos de Musk e um feed tomado pelo caos
Há, ainda, a questão de quem controla a narrativa. Musk bateu recordes de doação neste ciclo das eleições americanas: US$474 milhões, ou R$2,57 bilhões. O empresário usa a própria plataforma como um brinquedo para espalhar a sua visão de mundo, que, convenientemente, costuma ser a mais favorável aos seus próprios negócios. Nas midterms desta semana, a conta ficou ainda mais evidente, com o feed dando destaque a conteúdo abertamente alinhado aos republicanos. Uma rede social inteira operando como megafone pessoal do dono.
O X, após a aquisição, deixou de ser uma empresa de capital aberto. Por isso Musk faz o que quiser ali: se estivesse listada na bolsa, ele já teria sido demitido. A receita com publicidade despencou cerca de 70% desde 2022: foram US$ 2,2 bilhões no primeiro semestre daquele ano contra US$ 710 milhões no mesmo período de 2026, uma queda de mais de 18% só em relação a 2025. Na União Europeia, a plataforma perde usuários desde 2023.
O valor de mercado do X já minguou também: em 2025, numa operação entre as próprias empresas de Musk, o X foi reavaliado em US$ 33 bilhões , ou seja, perdeu mais de um quarto do preço em pouco mais de dois anos.
O paradoxo é que, mesmo encolhendo, o X prende quem fica. Segundo a SimilarWeb, em setembro de 2026 foi a rede social em que o usuário passou mais tempo por visita: 13 minutos e 25 segundos, à frente de Facebook (10min15s) e Instagram (8min38s). É o retrato de uma plataforma que perde gente, mas vicia quem permanece: menos usuários, mais dependentes.
Alguns decidiram que não dava mais. A emissora pública alemã Deutsche Welle fechou boa parte de suas contas no X no final de outubro (quase no aniversário de quatro anos da compra de Musk ), somando-se a um verdadeiro êxodo institucional europeu: o Ministério da Defesa da Alemanha suspendeu publicações, enquanto órgãos públicos e partidos abandonaram a rede. O argumento é sempre o mesmo: não dá para manter uma marca séria num lugar onde o discurso de ódio e a desinformação correm soltos.
O que nos leva à pergunta incômoda: se a plataforma encolhe, se envenena o debate, se até instituições inteiras estão indo embora, por que a maior parte de nós continua ali, rolando o dedo?
Talvez continuemos pelo mesmo motivo que nos faz voltar a qualquer vício: o medo de ficar de fora. O X ainda é onde a conversa nasce, onde a piada surge primeiro, onde “está todo mundo comentando”. Sair significa perder o pulso: e poucas coisas assustam mais, na economia da atenção, do que a sensação de estar por fora.





