Manifesto pela improdutividade
Nina, minha filha, estava em uma viagem de estudos no começo deste ano e ligou para casa em um fim de semana qualquer. Era sábado à tarde, falávamos por videochamada e perguntei como estava sendo o dia dela. “Ah, queria ter feito tanta coisa, mas fiquei por aqui. Não fiz nada útil hoje. Foi meio improdutivo”.
Mas o que é um dia útil, no fim das contas? Fazer coisas? Atribuímos ao ócio e ao tédio o sentido de inutilidade, mas não seria justamente esse não fazer, o hesitar e a elaboração imaginativa que vem como resultado disso, algo tão importante para nossa constituição humana? Nossa chamada terminou com uma conversa mais ou menos assim e não falamos mais nesse assunto até a semana passada.
Quando li, por determinação da minha terapeuta, o livro “Sociedade do Cansaço”, de Byung-Chul Han, a princípio fiquei em choque com o que ele escreveu a respeito do esgotamento: “A coação de desempenho força-o a produzir cada vez mais. Assim, jamais alcança um ponto de repouso da gratificação. Vive constantemente num sentimento de carência e de culpa. E visto que, em última instância, está concorrendo consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir. Sofre um colapso psíquico, que se chama de burnout (esgotamento). O sujeito do desempenho se realiza na morte. Realizar-se e autodestruir-se, aqui, coincidem”.
Era 2018 quando li. De lá para cá, porém, um outro conceito que ele aborda na obra me ocorre mais vezes enquanto penso a respeito desse sentimento que nos arrebata: “O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo” (…) “Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rápido ao redor de si mesma.”
Quando faço meus treinos de corrida na esteira, é comum que eu me sinta como um hamster naquelas rodas enormes. Então, repito para mim mesmo que sou um homem, não um rato, e aumento a velocidade. Acelero mais e mais, feliz em saber que meu relógio Garmin está medindo minha performance e termino o treino satisfeito por ter me superado, feliz em corresponder às expectativas do meu relógio e com esperança de que no dia seguinte, ao amanhecer, ele diga que meu status agora é excelente, produtivíssimo, que finalmente me tornei uma máquina.
Na semana passada, estava aqui trabalhando no texto anterior e Nina apareceu. Falei sobre o que escrevia, trocamos algumas ideias, até que ela comentou: “pai, bem que você poderia escrever algum dia sobre essa história de produtividade e ‘fazer coisas úteis’ sobre a qual conversamos durante minha viagem”. Com o advento da inteligência artificial generativa e com as novas tecnologias, ela argumentou, esse sentimento utilitário sobre a vida está ficando ainda mais acentuado. Fiquei de pensar no assunto.





