Premier League restringe bets, mas tolera dinheiro de regimes autoritários
Ruanda é governada por Paul Kagame desde 2000 e organizações internacionais documentam repressão à oposição, prisões de críticos, restrições à imprensa e à sociedade civil. A Human Rights Watch relata ainda o apoio das forças ruandesas ao M23 no leste da República Democrática do Congo e associa o grupo e forças ruandesas a graves violações de direitos humanos.
Sim, “Visit Rwanda” saiu da camisa do Arsenal, mas não da Premier League. Na aual temporada, sem bet como patrocinador master, o Aston Villa cedeu seu espaço mais nobre para tal propaganda. O certame retira as casas de apostas da frente das camisas alegando proteção social topa publicidade turística de um governo cujo histórico de direitos humanos é alvo de críticas internacionais.
Bets e violações de direitos humanos não são equivalentes, claro. Mas a questão é a falta de um padrão ético uniforme para definir que dinheiro é considerado inconveniente. O exemplo mais poderoso, porém, está em Newcastle. Em 2021, a Premier League aprovou a compra do clube por um consórcio liderado pelo Public Investment Fund (PIF) da Arábia Saudita, que ficou com a participação majoritária.
A liga afirmou ter recebido garantias de que o Estado saudita não controlaria o time. Difícil ignorar é que o PIF é presidido pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. A Anistia Internacional contestou e pediu que o teste para proprietários da Premier League incorporasse critérios explícitos de direitos humanos, classificando a aquisição como sportswashing — uso do esporte para melhorar a reputação.
É aí que a política da Premier League se mostra incoerenre. Para as apostas, criou-se uma regra coletiva baseada em responsabilidade social: é preciso proteger menores e pessoas suscetíveis aos danos causados pelo jogo. Ok. Mas para proprietários e patrocinadores relacionados a Estados acusados por organizações internacionais de graves violações de direitos humanos, os filtros foram diferentes.
A contradição surge quando a preocupação com bets é apresentada como demonstração ampla de responsabilidade social, enquanto outras fontes de dinheiro passam por critérios muito menos restritivos. A retirada das casas de apostas da frente das camisas pode ser defendida como medida de proteção ao consumidor, não como certificado de coerência ética para o futebol inglês.





