Maria Bethânia faz o ‘L’ de Lula em show no Coala Festival – 12/09/2026 – Ilustrada
Em sua 12ª edição, o Coala Festival trouxe mais uma escalação eclética para os palcos montados no Memorial da América Latina no fim de semana. No sábado, o público paulistano respondeu bem, lotando o espaço, apesar da ameaça de chuva forte durante toda a tarde e da temperatura caindo.
O festival foi crescendo ano a ano, partindo de convidados mais alternativos e, aos poucos, encaixando medalhões da música brasileira em sua programação. E, nesta edição, o termo “medalhão” é inevitável: Maria Bethânia fechou no sábado a primeira noite do evento, fazendo o “L” com os dedos da mão e gritando “eu voto Lula presidente!”.
Duas características são amplamente conhecidas por quem gosta de acompanhar shows da cantora. Uma é sua voz estrondosa, uma força da natureza, inabalável aos 80 anos. A outra é uma seriedade diante do compromisso de cantar, quase uma sisudez.
Bethânia gosta de shows muito ensaiados, reproduzidos sem imprevistos, e exige respeito total da plateia diante da proposta. Adora intercalar as músicas com poemas e textos declamados, e impõe o silêncio da plateia nessas intervenções.
Assim, ela nunca foi uma presença fácil em grandes festivais. E quem foi ao Coala no sábado se surpreendeu com a empolgação e a clara alegria de Bethânia. Essa descontração diante da plateia, ao que tudo indica, surgiu com força depois da recente temporada de shows em grandes estádios que fez com o irmão, Caetano Veloso.
Se é isso mesmo, trata-se de mais uma grande contribuição de Caetano à MPB. Com hits que o Brasil inteiro já cantou junto, é incrível ver uma Maria Bethânia de peito aberto a seu público, numa celebração que pode ser representada por escolhas como “Brincar de Viver”, “Olhos nos Olhos”, “Fé Cega, Faca Amolada”, “Negue”, “Olha” e “Explode Coração”.
Antes de Bethânia, Emicida pisou no palco já com o público inteiro a seus pés. Foi um show consagrador de um artista que conversa há anos com a base de fãs na plateia. Ele percorreu canções de vários álbuns, notadamente “Emicida Racional Vol. 2”, lançado no final do ano passado, com releitura da obra do Racionais MC’s. Impossível não agradar.
Foi um show impecável, com destaque para a percussão e os backing vocals femininos. Um hit como “A Chapa É Quente” soa revigorado, só lado de espertas apropriações de Sandra de Sá, Belchior e Marcos Valle.
De certo modo, Emicida conseguiu uma conexão até mais poderosa com o público do que Bethânia estabeleceu em seguida. A plateia do Coala é a moçada paulistana que passa o ano inteiro indo a shows pela cidade. É uma espécie de comunidade, a ponto de gerar cenas divertidas.
Com o festival sendo realizado este ano nos mesmos dias do segundo final de semana do Rock in Rio, a fidelidade do público provocou até alguns gritos de guerra entoados pela plateia. “Coala é delírio/ melhor que o Rock in Rio”, bradavam os adeptos do evento ao receberem Emicida.
Num dia encerrado um show de Maria Bethânia, uma curiosidade: os shows foram abertos por seu sobrinho, Zeca Veloso. Escalado para cantar às 13h30, encarou uma plateia ainda esvaziada. Quem estava lá se impressionou com seu falsete e afinação, mostrando o repertório do disco solo de estreia.
Durante a tarde, dois shows de encontros marcaram a programação. Cícero dividindo o palco com Duda Beat funcionou bem. Mais surpreendente foi colocar lado a lado o veterano Marcos Valle e a revelação recente Ana Frango Elétrico.
A química entre Valle, de 82 anos, e Ana, que tem 28, ganhou o entusiasmo da plateia. A cantora estava um tanto nervosa, mas seu parceiro, com a experiência de quem já tocou ao lado da nata da música mundial, conduziu o show em favor dela, como um tutor carinhoso. A dupla se saiu muito bem.
Uma novidade da vez foram duas apresentações no Auditório Simón Bolívar, que faz parte do complexo do Memorial. No sábado, Rubel cantou versões interessantes e um tanto diferentes de sua mistura de pop, folk e MPB, acompanhado de orquestra. No domingo, o espaço está reservado para Tom Zé.
O segundo dia vai fechar com dois cantores em momentos diferentes, mas importantes em suas carreiras. João Gomes tem sido praticamente onipresente em eventos ligados ao som nordestino. No Coala, avança para um público mais diversificado. Acima de tudo, é um vocal impressionante.
E o Coala 2026 será encerrado por Criolo, um artista que tem uma carreira contemporânea ao festival. E ele vai celebrar os 15 anos de seu álbum “Nó na Orelha”, uma das estreias mais fortes da música brasileira.





