Resolução genérica sobre guerra marca cúpula dos Brics – 12/09/2026 – Mundo
Apesar dos pedidos do líder chinês Xi Jinping para que o Brics assuma um papel de protagonista na paz do Oriente Médio, o grupo integrado por Brasil e outros países adotou neste sábado (12) uma resolução apenas genérica acerca da paz na região conflagrada.
O texto final da 18ª reunião anual do grupo, realizada em Nova Déli (Índia), afirmou que seus membros expressam “profunda preocupação” com o conflito, pediu “máxima contenção” dos envolvidos e “uma abordagem multilateral” pela paz.
Nenhuma palavra sobre os beligerantes: Estados Unidos, Israel e Irã, nem sobre os outros 13 países da região afetados pela guerra iniciada por Donald Trump em 28 de fevereiro e ainda inconclusa.
Um dos motivos era a presença de dois deles à mesa: Irã e Emirados Árabes Unidos, principal alvo da retaliação de Teerã contra aliados americanos no golfo Pérsico. Nesse sentido, a existência de uma declaração unânime ainda que sem assinaturas foi uma vitória do anfitrião, o premiê Narendra Modi.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, também se encontrou com o enviado emirati, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed, às margens da cúpula.
O primeiro-ministro indiano também pôde mostrar uma nova fotografia com o russo Vladimir Putin e Xi, todos de mãos dadas, repetindo a dose do encontro entre os três em setembro de 2025 na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, na China.
Naquele momento, a imagem simbolizava o desafio do trio às políticas dos EUA sob Trump. Agora, cada país tem tido uma abordagem própria em relação ao americano, baseada em seus interesses.
O texto também repetiu críticas já feitas antes pelo Brics a sanções unilaterais, uma mesura à fundadora do grupo Rússia, punida no Ocidente pela Guerra da Ucrânia, e às guerras tarifárias que marcam a segunda gestão Trump. Sem nomes citados.
O tom pouco específico reflete as discrepâncias internas do Brics, que começou em 2009 com 4 membros e chega a 2026 com 10, 5 deles integrados na grande expansão promovida por Xi em 2023 para tentar elevar o status internacional da organização.
Na prática, as divergências ficaram mais explícitas. Com efeito, após não ter sido acertada uma nova expansão em 2024 na Rússia, o encontro de 2025 no Brasil foi esvaziado. Nesta edição indiana, foi a vez de Lula (PT) não aparecer, no caso por causa da campanha eleitoral.
Mesmo no questionamento da hegemonia ocidental, função primária do Brics, não há concordância. A Índia, por exemplo, não quer ver a rival China tornar-se sozinha o polo oposto aos EUA na Guerra Fria 2.0 em curso, e tem boa relação tanto com Washington como com Moscou.
Nessa cúpula, o destaque ficou justamente pela presença de Xi pela primeira vez em sete anos na Índia.
Ele já havia se encontrado antes com Modi, mas o premiê tem trabalhado para montar uma rede de aliados no Indo-Pacífico que possam, na teoria, ameaçar as rotas comerciais chinesas em caso de escalada de tensões.
Os dois países, detentores de armas nucleares, tiveram escaramuças fronteiriças nos últimos anos, e a visita de Xi serve para reduzir tais tensões. No encontro com Modi, pediu para que ambos os países unam forças para promover estabilidade estratégica global.
Além da questão indiana, o líder chinês também buscou avançar seu domínio presumido no Brics em discurso neste sábado. Nele, exortou o grupo a tornar-se mediador das guerras no Oriente Médio, um papel que na prática ele quer para a China.
Na semana passada, Xi esteve no Egito, e declarou apoio ao pacto militar entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. A união é uma resultante inédita da agressividade do Irã, da falta de confiança no apoio dos EUA e do temor pelo crescimento do poderio de Israel.
Ao fim, o chinês falou por si, a julgar pelo tom do comunicado final. Mas o recado foi dado.





