Não faça da maratona um projeto de vida - 07/09/2026 - No Corre - FlaNotícias

Não faça da maratona um projeto de vida – 07/09/2026 – No Corre


Ouvi de vários treinadores de corrida histórias de alunos que buscam obsessivamente disputar uma maratona, queimando mais etapas do que o cânone do treinamento e o bom senso recomendariam.

É mais ou menos consensual que o aumento abrupto de volume de treinamento abre portas para lesões, embora as respostas de adaptação ao esforço de cada corredor sejam muito próprias. Não há um padrão, um “template” que sirva perfeitamente para você ou para quem te apresentou a corrida.

Mas, sim, é possível chegar rapidamente nesse número-fetiche, 42,2, a quantidade de quilômetros da mara, mesmo sem qualquer experiência prévia no cascalho.

Numa coluna de abril, perguntei a duas IAs de entrada, Gemini e ChatGPT, se seria possível correr uma maratona ainda em 2026 sendo eu um neófito, um rookie, um sujeito tão sedentário quanto um publicitário de “Mad Men”. Elas não apenas disseram que sim, como montaram planos de treinamento.

A questão é: pra quê?

Correr uma maratona pode parecer um ótimo projeto pessoal, algo que envolve supostamente uma sequência disciplinada de treinos e –mais supostamente ainda– sacrifícios intensos, e a grande recompensa a justificar o tal projeto estaria exatamente aí: em superá-los.

Mas será que é mesmo assim? Se a minha experiência pessoal vale algo, 13 maras em 13 anos de cascalhos regulares, com a primeira vindo no fim talvez do segundo ano, devo dizer que não vivenciei esses tais sacrifícios; se havia um projeto (não havia), ele não me tornou uma pessoa diferente.

Já cheguei a ouvir durante uma maratona em São Paulo que aquele quilômetro, talvez o 8, era o momento em que os homens se separavam dos meninos, uma vez que a partir dali só sobrariam os maratonistas –o pessoal do 10k e da meia seguiriam por outros percursos.

Se a maratona ensina alguma coisa, não ensinou ao porta-voz da frase a superação da hipertrofia do próprio ego.

Creio que não será a maratona, mesmo que você a corra depois de anos e anos de evolução constante, aquilo que vai fazer de você uma pessoa melhor. Sim, ela certamente vai incrementar seu condicionamento físico, embora você possa ter resultados talvez ainda melhores com distâncias menos desgastantes.

Portanto, a pergunta vale não apenas para os mais afoitos, que querem chegar à maratona amanhã, como para todos os que correm a distância. Repito-a: pra quê?

Mas a questão é de amplo espectro. Há vaidade, egolatria, soberba em todo lugar —na ioga, por exemplo, por mim também tão enaltecida.

Vem bastante a calhar a abertura do livro “Ioga”, de Emmanuel Carrère, esse expoente máximo da tal autoficção literária, que, a caminho de um retiro vipassana, para passar sete dias ou mais em completo silêncio e sem qualquer aparato de distração (até livros e blocos de anotações são vetados), já começa a desdenhar mentalmente dos companheiros no transfer.

(Claro que pega bem com o leitor um narrador que se esforça para ser o pior dos mortais, mas a passagem é bastante verossímil.)

A ioga surgiu como ferramenta auxiliar de um projeto que talvez, esse sim, seja ambicioso: a redução progressiva do ego até sua aniquilação.

Talvez aquele parça que corre 5 ou 10 km (sacrifícios facultativos), mas que não exige da corrida algo que a corrida não pode lhe dar, saiba tirar melhor proveito desse excelente exercício.


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