Como seis meses de guerra no Irã abalaram mercados - 29/08/2026 - Economia - FlaNotícias

Como seis meses de guerra no Irã abalaram mercados – 29/08/2026 – Economia


Depois que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, o preço do petróleo disparou, os juros subiram e as ações despencaram. Em uma semana, os motoristas americanos já pagavam 34% a mais pela gasolina, conforme o fluxo de energia do golfo Pérsico era interrompido.

Seis meses depois, a guerra entrou em um frágil compasso de espera. O petróleo está sendo escoado, mas em menor quantidade, e os preços dos combustíveis continuam altos.

Os navios seguem circulando, porém em número menor do que antes da guerra e por rotas diferentes. Os investidores em ações e títulos voltaram sua atenção —em sua maioria— para outras questões.

Veja como estão os mercados após seis meses de guerra.

Petróleo subiu mais de 20%

A US$ 89 o barril, o petróleo custa 23% mais do que antes da guerra, o que levou a uma alta generalizada de preços de todo tipo de produto.

Mas, se seis meses atrás alguém tivesse pedido à maioria dos executivos do setor de energia que previssem os preços do petróleo após um conflito tão prolongado em torno do estreito de Hormuz, eles teriam escolhido um valor muito mais alto.

A economia global mostrou uma capacidade surpreendente de se virar sem toda a energia que antes comprava do golfo Pérsico, uma das regiões produtoras de petróleo mais importantes do mundo.

Há algumas razões para isso. Países altamente dependentes do petróleo do Oriente Médio reduziram o consumo. O governo Trump e outras nações usaram reservas estratégicas de petróleo.

Empresas de todo o continente americano extraíram mais petróleo que o esperado, e muitas das que operam no golfo encontraram formas de exportá-lo apesar dos riscos de atravessar o estreito. E, em uma medida que poucos previram, a China —normalmente a maior importadora de petróleo do mundo— reduziu drasticamente suas compras.

O que esperar daqui para frente, segundo Rebecca F. Elliott:

O rumo dos preços dependerá, entre outros fatores, de quanto tempo os EUA e o Irã continuarão interferindo no tráfego pelo estreito e de a China voltar ou não a importar mais petróleo.

Por enquanto, porém, o mercado parece estar se acomodando a uma nova realidade. A maior preocupação é que as guerras —no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia— tenham paralisado refinarias, deixando o mundo com menor capacidade de transformar petróleo em gasolina e diesel e tornando esses combustíveis muito mais caros.

Preço nas bombas está mais alto

A alta do petróleo se traduz em combustíveis mais caros, e o salto no custo da gasolina talvez seja o efeito mais visível da guerra para os consumidores americanos. O preço médio nacional da gasolina comum nos EUA, de US$ 4,09 por galão nesta sexta-feira (28), subiu 38% desde o início da guerra, segundo o clube automobilístico AAA.

Os preços estão subindo principalmente devido ao encarecimento do petróleo bruto, que representa cerca da metade do preço de varejo nas bombas, conforme a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.

Impostos, custos de transporte e lucros dos postos de combustível compõem grande parte do restante, mas os efeitos não se distribuem de maneira uniforme: a gasolina custa, em média, US$ 5,65 por galão na Califórnia, ante US$ 3,63 no Texas.

O preço do diesel subiu ainda mais rapidamente do que o da gasolina, aproximando-se do recorde estabelecido em 2022. A US$ 5,61 por galão, o valor está quase 50% acima do nível anterior à guerra.

O diesel movimenta grande parte dos EUA, sendo usado por trens, caminhões e outros maquinários pesados. À medida que os preços aumentam, as empresas frequentemente repassam os custos aos clientes, com amplas implicações para a inflação.

Os preços estão subindo porque há menos refinarias produzindo diesel. O volume produzido no Oriente Médio caiu em meio aos combates, e o colapso da capacidade de refino da Rússia agravou os efeitos após os ataques ucranianos contra suas instalações.

O que esperar daqui para frente, segundo Aruni Soni:

Analistas de energia costumam descrever a oscilação dos preços dos combustíveis como ‘subir como um foguete e descer como uma pena’ —fenômeno que significa que o custo da gasolina acompanha rapidamente as altas do petróleo, mas demora a cair quando ele recua.

Quando o petróleo bruto voltou brevemente ao preço anterior à guerra, no fim de junho e início de julho, o custo médio da gasolina permaneceu 30% acima do nível pré-guerra. A expectativa é que esse padrão continue.

Transporte marítimo no Oriente Médio está desorganizado

O tráfego marítimo pelo estreito de Hormuz, hidrovia vital por onde passava um quinto do petróleo mundial antes da guerra, continua praticamente paralisado.

Antes da guerra, mais de cem navios por dia atravessavam o estreito entre Irã e Omã. Agora, o movimento se reduziu a um fio. Recentemente, apenas cerca de uma dúzia de navios por dia passou pela via, segundo a Kpler.

O governo Trump tem incentivado os navios a fazer a travessia, com a Marinha americana escoltando-os pela parte sul do estreito, em águas de Omã. Até esta semana, as forças americanas haviam removido as minas instaladas pelo Irã no estreito, segundo o almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central.

Mas atravessar o estreito continua sendo perigoso. Dois tripulantes morreram nas últimas duas semanas, e outro está desaparecido. No total, houve pelo menos 71 ataques a navios desde o início da guerra, e 19 marinheiros morreram.

Em junho, Irã e EUA assinaram um acordo para reabrir o estreito e, durante três dias, mais de 60 navios passaram por ali por dia. Mas o acordo fracassou, e as forças americanas voltaram a bloquear portos iranianos. O Irã tentou reafirmar seu controle criando um novo sistema de cobrança pela passagem dos navios pelo estreito, que antes era gratuita.

A instabilidade obrigou muitas empresas de transporte marítimo a evitar o estreito. A Arábia Saudita, maior produtora de petróleo da região, passou a exportar mais petróleo bruto pelo mar Vermelho.

Então a milícia Houthi, que controla parte do Iêmen e é apoiada pelo Irã, ameaçou bloquear navios sauditas. Uma nova rota alternativa, pela parte norte do mar Vermelho, é mais complicada e cara. As exportações de energia do golfo Pérsico continuam abaixo dos níveis anteriores à guerra.

O que esperar daqui para frente, segundo Jenny Gross:

Não está claro quando —ou mesmo se, na opinião de alguns especialistas— o transporte marítimo na região voltará ao que era antes da guerra. Nesta semana, Irã e Omã, aliado dos EUA, disseram estar discutindo um plano para administrar o tráfego no estreito. Foram divulgados poucos detalhes sobre como esse acordo funcionaria.

Ações subiram, e títulos parecem mais instáveis

Ao longo dos anos, os investidores aprenderam a não dar muita atenção à geopolítica. Quedas curtas e acentuadas no mercado acionário ocorreram durante a pandemia de Covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia e o ataque do Hamas a Israel, antes de o mercado se recuperar rapidamente e alcançar novos patamares.

O S&P 500 caiu no primeiro mês da guerra, depois se recuperou e atingiu uma série de novas máximas históricas, a mais recente em meados de agosto. O índice agora acumula alta de 13% desde o início da guerra.

Com os preços do petróleo no mercado futuro se estabilizando abaixo de US$ 90 o barril até o fim do ano, grande parte da atenção de investidores se voltou para outros temas. Em especial, os investidores passaram a se concentrar nos lucros gerados pelas empresas na vanguarda da inteligência artificial, cujos resultados trimestrais vêm superando continuamente as expectativas.

Nesta semana, a Nvidia mais do que dobrou sua receita trimestral, para quase US$ 100 bilhões, e deu poucos sinais de desaceleração.

À medida que aumentam as expectativas sobre quanto dinheiro a Nvidia e outras empresas impulsionadas pelo boom da IA poderão gerar no futuro, também sobem os preços de suas ações, que têm grande influência sobre os índices devido aos seus valores de mercado na casa dos trilhões.

Até agora, os lucros corporativos protegeram investidores de outras preocupações, não apenas da guerra no Irã.

Os investidores em títulos parecem mais apreensivos. A alta dos rendimentos —que se movem na direção oposta à dos preços— reflete expectativas de maior crescimento econômico devido à IA, mas também preocupações crescentes com a inflação, a dívida pública e a incerteza geopolítica.

O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos, que influencia as hipotecas e os empréstimos empresariais, subiu de cerca de 4% há seis meses para pouco menos de 4,7%.

O que esperar daqui para frente, segundo Joe Rennison:

Com o tempo, rendimentos mais altos dos títulos resultam em juros mais elevados em toda a economia, inclusive para as empresas de IA que tomam bilhões de dólares emprestados para construir centros de dados.

Custos financeiros maiores tendem a corroer os lucros corporativos, uma preocupação para os investidores em ações. “A conclusão para os investidores é que os juros permanecerão mais altos por mais tempo”, disse Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management.



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