Diagnóstico não é salvo-conduto moral – 11/08/2026 – Assim Como Você
Numa postagem nas redes sociais, uma usuária que se autodeclarava “esposa atípica”, por ser casada com um autista nível 2 de suporte que teria sido diagnosticado havia pouco tempo, afirmou que o marido “entrou em crise, soltou palavrões, deu murro na parede e gritou”. Não fica claro se as atitudes foram contra ela. Ela, porém, justifica o destempero dizendo que é preciso compreender a violência, uma vez que o homem havia entrado em crise, algo que seria inerente à condição neurológica dele.
De fato, segundo especialistas, autistas podem ter perda temporária de controle de algumas atitudes diante de sobrecarga sensorial, emocional, comunicacional. Uma desregulação pode envolver gritos, agressão, autoagressão ou destruição de objetos, mas a existência desse fenômeno não permite atribuir automaticamente ao autismo um comportamento violento.
Daí a importância, principalmente para crianças, das salas de descompressão, que têm ganhado mais espaço em ambientes públicos no Brasil. Nesses locais, autistas e pessoas com outras neurodivergências podem se organizar para fazer interações de forma mais tranquila.
O problema em tudo isso é quando se começa a misturar características de uma deficiência, seja ela física, intelectual, sensorial, com caráter, com valores morais e éticos. Agredir alguém numa discussão e, em seguida, sacar um laudo médico me parece bem pouco defensável.
Uma pessoa com deficiência pode ser, igual a qualquer outro vivente, oportunista, mau-caráter, farsante, violenta, larápia, enganadora, grosseira e demais adjetivos desabonadores. Quem lança mão de sua condição como escudo social para situações que nada têm a ver com aspectos inerentes a ela está praticando o chamado “coitadismo”.
Com um contingente cada vez maior de pessoas tendo reconhecidas suas condições de deficiência, sobretudo nas neurodivergências, é importante que se reforce que, embora a empreitada contra o capacitismo –o preconceito contra pessoas com deficiência— seja tema central de inclusão, nem tudo é discriminação, nem tudo é ação que desconsidera formas de ser e nem tudo é direito.
Vejo com preocupação autistas sem comprometimentos que justifiquem o uso de vagas reservadas reivindicarem esses espaços apenas por terem, legalmente, uma deficiência. Essas vagas não foram criadas como um benefício genérico, mas para responder a necessidades concretas. Generalizar prejudica quem de fato precisa, inclusive quem é do espectro.
Defender esse “direito” como algo do grupo e, logo, válido para todos me parece confundir diagnóstico com necessidade. Recursos de acessibilidade existem para eliminar barreiras específicas, não para conceder vantagens indistintamente. Sem bom senso, transforma-se uma política de equidade em privilégio e, pior, coloca-se em risco demandas legítimas e crédito social necessário à construção de uma realidade mais acolhedora, diversa e acessível.
É espinhoso parecer jogar contra o meu próprio time, mas não dá para defender posturas questionáveis a respeito de um jeito de ser. Labutar pela humanização de pessoas com deficiência, por mudanças na forma como são vistas, aceitas e acolhidas, é também ter liberdade de criticá-las e observar posturas e demandas.
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